Alguém dúvida que teriam nomes mais ou menos assim?
Mangueira: Camisa Verde e Rosa
Salgueiro: Flor da Tijuca
Beija-Flor: Príncesinha de Nilópolis
Viradouro: Império do Barreto
Unidos da Tijuca: Pavão da Zona Norte
Porto da Pedra: Morro de São Gonçalo
União da Ilha: Cabeções da Ilha do Governador
Portela: Águia de Prata ou Paulo de Madureira
Vila Isabel: Nenê de Vila Isabel
Grande Rio: Entorno da Cidade
Mocidade: X-9 de Padre Miguel
Imperatriz: Coroa Verde e Branca
Thursday, February 18, 2010
Friday, February 05, 2010
A entrada de Copacabana
Há algo de fascinante na "entrada" de Copacabana.
"Entrada", assim mesmo, entre aspas, porque é entrada para mim. É por onde eu entro em Copacabana vindo de Botafogo, no trajeto de todos os dias entre trabalho e casa.
Mas, esquecendo os detalhes, há algo de fascinante. Algo que não sei explicar muito bem o que é. Então, melhor nem tentar.
Diria que o trecho entre o Túnel Novo e a Praça Cardeal Arcoverde - a própria praça e mais um trechinho - tem algo de especial.
Tudo começa com o Túnel Novo, ou Túnel Coelho Cintra. Em um dia claro e de sol, o fascínio começa pela luz amarela do sol batendo nas paredes do túnel (na parte que ela chega...), mas, principalmente, do outro lado, formando uma imagem meio branca, meio amarela, meio enevoada, entre prédios, asfalto, carros, rua, a praia lá longe...
Num dia de chuva forte, é claro, não dá para ver nada. Já à noite, o fascínio é quase infantil, quase tolo, quando os olhos se perdem pelas luzinhas do teto do túnel, que parecem correr em alta velocidade pelo lado de fora do ônibus. E do outro lado, brilham as luzes da noite, as primeiras luzes de Copacabana, o sinal do meio do caminho.
Depois que o ônibus atravessa o túnel, chega a Copacabana. Chega em um pedaço pouco circulável, onde quase não vejo gente andando a pé. Praça Demétrio Ribeiro. Tenho uma curiosidade danada de andar a pé aqui, mesmo sabendo que não tem absolutamente nada demais.
E toda vez encaro a estátua do tal do Demétrio, que não sei quem é (político e educador gaúcho, diz a Wikipedia), mas que está sempre em pose de reverência, curvado, como que saudando quem chega.
Então, passamos pela Rua Prado Júnior e entramos na área dos bares. São três ou quatro, um atrás do outro, ali, antes da Rua Belford Roxo, na Barata Ribeiro. Aqui já há gente circulando. É quase como se fosse um oásis no meio do deserto.
Essa é a área mais fascinante, junto com o túnel. Os prédios antigos, o jeitão apressado de um bairro calmo, gente andando nas ruas, movimento, e ao mesmo tempo, uma sensação de paz, de calma, que é ainda maior à tarde, com o sol batendo nas grades, nos muros, nas paredes.
Já devo ter sonhado umas duas vezes com esse lugar. Inexplicável.
Por fim, o ônibus avança, entra em uma área meio mórbida da Barata Ribeiro, onde parece que é sempre noite, há pouca luz e quase não vejo gente circulando. Aqui tem uma loja das Casas Fernandes que me lembra um comercial da própria loja, que via quando era pequeno, com meu pai, e que era engraçado (o comercial, não meu pai).
Mas não tenho a menor ideia sobre o que era.
Está acabando, a área fascinante vai chegando ao fim. O ônibus vira à direita na Praça Cardeal Arcoverde e entra na Rua Tonelero. Os prédios já são mais modernos. Essa área já é mais histórica...foi aqui, na Rua Otaviano Hudson, que nasceu a Bossa Nova.
As luzes já são mais intensas, e depois de passar por um colégio e por um restaurante, cruzamos a Rua Marechal Mascarenhas de Morais.
E aqui termina a "entrada" de Copacabana...
"Entrada", assim mesmo, entre aspas, porque é entrada para mim. É por onde eu entro em Copacabana vindo de Botafogo, no trajeto de todos os dias entre trabalho e casa.
Mas, esquecendo os detalhes, há algo de fascinante. Algo que não sei explicar muito bem o que é. Então, melhor nem tentar.
Diria que o trecho entre o Túnel Novo e a Praça Cardeal Arcoverde - a própria praça e mais um trechinho - tem algo de especial.
Tudo começa com o Túnel Novo, ou Túnel Coelho Cintra. Em um dia claro e de sol, o fascínio começa pela luz amarela do sol batendo nas paredes do túnel (na parte que ela chega...), mas, principalmente, do outro lado, formando uma imagem meio branca, meio amarela, meio enevoada, entre prédios, asfalto, carros, rua, a praia lá longe...
Num dia de chuva forte, é claro, não dá para ver nada. Já à noite, o fascínio é quase infantil, quase tolo, quando os olhos se perdem pelas luzinhas do teto do túnel, que parecem correr em alta velocidade pelo lado de fora do ônibus. E do outro lado, brilham as luzes da noite, as primeiras luzes de Copacabana, o sinal do meio do caminho.
Depois que o ônibus atravessa o túnel, chega a Copacabana. Chega em um pedaço pouco circulável, onde quase não vejo gente andando a pé. Praça Demétrio Ribeiro. Tenho uma curiosidade danada de andar a pé aqui, mesmo sabendo que não tem absolutamente nada demais.
E toda vez encaro a estátua do tal do Demétrio, que não sei quem é (político e educador gaúcho, diz a Wikipedia), mas que está sempre em pose de reverência, curvado, como que saudando quem chega.
Então, passamos pela Rua Prado Júnior e entramos na área dos bares. São três ou quatro, um atrás do outro, ali, antes da Rua Belford Roxo, na Barata Ribeiro. Aqui já há gente circulando. É quase como se fosse um oásis no meio do deserto.
Essa é a área mais fascinante, junto com o túnel. Os prédios antigos, o jeitão apressado de um bairro calmo, gente andando nas ruas, movimento, e ao mesmo tempo, uma sensação de paz, de calma, que é ainda maior à tarde, com o sol batendo nas grades, nos muros, nas paredes.
Já devo ter sonhado umas duas vezes com esse lugar. Inexplicável.
Por fim, o ônibus avança, entra em uma área meio mórbida da Barata Ribeiro, onde parece que é sempre noite, há pouca luz e quase não vejo gente circulando. Aqui tem uma loja das Casas Fernandes que me lembra um comercial da própria loja, que via quando era pequeno, com meu pai, e que era engraçado (o comercial, não meu pai).
Mas não tenho a menor ideia sobre o que era.
Está acabando, a área fascinante vai chegando ao fim. O ônibus vira à direita na Praça Cardeal Arcoverde e entra na Rua Tonelero. Os prédios já são mais modernos. Essa área já é mais histórica...foi aqui, na Rua Otaviano Hudson, que nasceu a Bossa Nova.
As luzes já são mais intensas, e depois de passar por um colégio e por um restaurante, cruzamos a Rua Marechal Mascarenhas de Morais.
E aqui termina a "entrada" de Copacabana...
"A mesa e a janela" ou "Devaneios"
Há quanto tempo sentei nessa mesa, junto da janela, pela última vez?
Hum...pensando bem...lá se vão...três anos e meio.
Cheguei há quatro. No início, era comum sentar aqui. O tempo sobrava, a rotina permitia, havia espaço, tempo, vontade.
Engraçado. Quando lembro do tempo em que ficava nessa mesa, tenho a impressão que o relógio seguia devagar, lento, os ponteiros demoravam a girar, as semanas se arrastavam, os meses não acabavam.
De repente, tudo mudou.
Os ponteiros começaram a voar, o tempo ficou curto, as responsabilidades aumentaram. Corria de um lado para outro, passava o dia inteiro ocupado, raros eram os momentos de tempo.
Não dava tempo nem de sentar aqui. Mal conseguia comer...
Depois, tudo mudou de novo. Mas meu ritmo já era veloz, rápido, frenético, e nunca mais me sentei aqui.
Hoje achei tempo.
Engraçado. Essa caixa de metal esteve sempre nesse mesmo lugar, lá fora, no parapeito da janela? Que coisa. Tinha a sensação que dava para ver mais a rua, as pessoas passando, essa casa velha - porém conservada - no meio dos prédios, o sinal de trânsito lá longe.
Esse sinal, também. Ele não era mais perto? E não era mais escuro? Teria sido pintado de branco nesse meio-tempo? E quem mais se ligaria em tantos detalhes?
Mas algo não mudou - esse quadro na parede, alguns palmos acima da cabeça, em frente ao local onde estou sentado. Sim, tenho certeza que é o mesmo quadro, o mesmo desenho.
A sensação, bem, essa também mudou. Antes havia uma ansiedade, uma expectativa, uma vontade de crescer, uma fé no futuro capaz de motivar qualquer um.
Pena que ainda não inventaram viagens a Netuno. Deve ser divertido. Ao menos, lá, as frustrações são outras.
Ou não, quem sabe. No planeta Plutão tem inflação?
Belo título de um livro infantil - e é, mesmo. Me lembro como se fosse hoje. Não, naquele tempo eu ainda não ficava nessa mesa. Na verdade, estava há alguns quilômetros de distância.
E penso no texto, e ele também mudou. Revela demais. Deixa de ser sobre uma mesa e passam a ser devaneios sobre outras coisas.
Mas aquilo que se tenta ocultar é o que mais aparece.
E que dia lindo está fazendo hoje. Sim, se não me engano, também fazia um dia lindo da última vez que estive aqui. Pronto, achei um elo de ligação.
Ou um outro texto...
Hum...pensando bem...lá se vão...três anos e meio.
Cheguei há quatro. No início, era comum sentar aqui. O tempo sobrava, a rotina permitia, havia espaço, tempo, vontade.
Engraçado. Quando lembro do tempo em que ficava nessa mesa, tenho a impressão que o relógio seguia devagar, lento, os ponteiros demoravam a girar, as semanas se arrastavam, os meses não acabavam.
De repente, tudo mudou.
Os ponteiros começaram a voar, o tempo ficou curto, as responsabilidades aumentaram. Corria de um lado para outro, passava o dia inteiro ocupado, raros eram os momentos de tempo.
Não dava tempo nem de sentar aqui. Mal conseguia comer...
Depois, tudo mudou de novo. Mas meu ritmo já era veloz, rápido, frenético, e nunca mais me sentei aqui.
Hoje achei tempo.
Engraçado. Essa caixa de metal esteve sempre nesse mesmo lugar, lá fora, no parapeito da janela? Que coisa. Tinha a sensação que dava para ver mais a rua, as pessoas passando, essa casa velha - porém conservada - no meio dos prédios, o sinal de trânsito lá longe.
Esse sinal, também. Ele não era mais perto? E não era mais escuro? Teria sido pintado de branco nesse meio-tempo? E quem mais se ligaria em tantos detalhes?
Mas algo não mudou - esse quadro na parede, alguns palmos acima da cabeça, em frente ao local onde estou sentado. Sim, tenho certeza que é o mesmo quadro, o mesmo desenho.
A sensação, bem, essa também mudou. Antes havia uma ansiedade, uma expectativa, uma vontade de crescer, uma fé no futuro capaz de motivar qualquer um.
Pena que ainda não inventaram viagens a Netuno. Deve ser divertido. Ao menos, lá, as frustrações são outras.
Ou não, quem sabe. No planeta Plutão tem inflação?
Belo título de um livro infantil - e é, mesmo. Me lembro como se fosse hoje. Não, naquele tempo eu ainda não ficava nessa mesa. Na verdade, estava há alguns quilômetros de distância.
E penso no texto, e ele também mudou. Revela demais. Deixa de ser sobre uma mesa e passam a ser devaneios sobre outras coisas.
Mas aquilo que se tenta ocultar é o que mais aparece.
E que dia lindo está fazendo hoje. Sim, se não me engano, também fazia um dia lindo da última vez que estive aqui. Pronto, achei um elo de ligação.
Ou um outro texto...
O sonhador e o fim
Ligou o estabilizador, a torre, a tela. Lentamente, as luzinhas do computador se acenderam, iniciando o programa.
Com tudo carregado, ele clicou no ícone da internet, digitou seu endereço de e-mail e esperou pela resposta do servidor.
Digitou nome, senha e entrou no e-mail.
Lá estava a mensagem. Enfim, um sinal de vida. Clicou uma vez.
Leu.
Não acreditou.
Leu de novo.
O golpe parecia doer mais do que ele queria admitir. Continuava sem acreditar. Como ela tinha coragem?
Leu uma terceira vez.
Continuava meio sem acreditar. Como num instinto, fechou o e-mail no “x” no alto da tela, encerrando o programa todo.
Levantou da cadeira ainda meio tonto, sem saber muito bem o que fazer. Tentou andar pelo quarto, mas num instante, tudo parecia girar, como se estivesse fora do lugar.
Voltou à cadeira, abriu de novo o e-mail, leu a mensagem uma quarta vez.
Irritado, deu um soco na mesa, fechei o e-mail de novo. Ficou de pé. Não conseguiu e sentou.
Aos poucos, o olhar foi se perdendo, como se ele olhasse para ontem. No lugar ao lado do computador, onde estava o ar-condicionado, pareceu se formar uma pequena tela. Ali passaram imagens dos dois, dos bons momentos, dos maus momentos.
Dos momentos estranhos, também. Da forma como ele pensava a situação. Do tempo que passou refletindo sobre o assunto. Dos dias que deixou de sair para imaginar como seriam as coisas...
Queria chorar, mas ao mesmo tempo, não queria. Achava que não valia a pena. Mas, ao mesmo tempo, tinha certeza de que valia.
Era o fim, é claro. Agora era tarde – e não só porque passava da meia-noite. Muito tarde, aliás.
Ele jamais poderia esperar algo assim depois de um dia tão bom, de tudo o que havia acontecido. Pensava em culpar sua sorte, mas sabia que, por ser quem era, jamais poderia fazer isso.
Como que acordando do transe, ficou de pé. Aos poucos, o quarto voltou ao foco, as coisas já não giravam mais.
O olho bateu na janela, e lá fora, no dia lindo que fazia.
Calçou o sapato e saiu para dar uma volta.
Com tudo carregado, ele clicou no ícone da internet, digitou seu endereço de e-mail e esperou pela resposta do servidor.
Digitou nome, senha e entrou no e-mail.
Lá estava a mensagem. Enfim, um sinal de vida. Clicou uma vez.
Leu.
Não acreditou.
Leu de novo.
O golpe parecia doer mais do que ele queria admitir. Continuava sem acreditar. Como ela tinha coragem?
Leu uma terceira vez.
Continuava meio sem acreditar. Como num instinto, fechou o e-mail no “x” no alto da tela, encerrando o programa todo.
Levantou da cadeira ainda meio tonto, sem saber muito bem o que fazer. Tentou andar pelo quarto, mas num instante, tudo parecia girar, como se estivesse fora do lugar.
Voltou à cadeira, abriu de novo o e-mail, leu a mensagem uma quarta vez.
Irritado, deu um soco na mesa, fechei o e-mail de novo. Ficou de pé. Não conseguiu e sentou.
Aos poucos, o olhar foi se perdendo, como se ele olhasse para ontem. No lugar ao lado do computador, onde estava o ar-condicionado, pareceu se formar uma pequena tela. Ali passaram imagens dos dois, dos bons momentos, dos maus momentos.
Dos momentos estranhos, também. Da forma como ele pensava a situação. Do tempo que passou refletindo sobre o assunto. Dos dias que deixou de sair para imaginar como seriam as coisas...
Queria chorar, mas ao mesmo tempo, não queria. Achava que não valia a pena. Mas, ao mesmo tempo, tinha certeza de que valia.
Era o fim, é claro. Agora era tarde – e não só porque passava da meia-noite. Muito tarde, aliás.
Ele jamais poderia esperar algo assim depois de um dia tão bom, de tudo o que havia acontecido. Pensava em culpar sua sorte, mas sabia que, por ser quem era, jamais poderia fazer isso.
Como que acordando do transe, ficou de pé. Aos poucos, o quarto voltou ao foco, as coisas já não giravam mais.
O olho bateu na janela, e lá fora, no dia lindo que fazia.
Calçou o sapato e saiu para dar uma volta.
Thursday, January 21, 2010
Sobre alguma coisa qualquer
Os lugares estão lá, mas os olhos, o olhar, não.
Parece que ainda posso ver. Caminhando pelos mesmos locais, ainda pareço escutar sua voz, lembrar do brilho dos seus olhos. E quem sabe, daquela risada a cada piada que eu fazia...
Mas não, agora é tarde. Não há mais ninguém. Só sobrou a estrutura. O restaurante, o bar, o ponto do ônibus, o posto de gasolina. O copo vazio...
Quantas vezes ele esteve cheio?
Não sei, perdi a conta. Foram muitas. Bastava ficar vazio para se encher novamente. Não chegava a ser um passe de mágica, não era tão assim. Era mais uma coisa automática, um movimento direto. Mas sem a contrapartida da repetição pós-movimento, como naquele velho filme do Chaplin...
E que importa? Agora só sobrou o copo vazio. Tem cerveja perto, mas não tem mais a mesma graça. Sem o brilho daqueles olhos, perdeu toda a graça. Sem carro, não tem combustível.
E aqui estou eu, sentado, sozinho, olhando o céu e a próxima estrela brilhando. Me sentindo estranho por pensar num texto tão poético, tão romântico, se há dúvidas se realmente acredito em tudo isso.
Se o tempo que passou realmente passou, e se vale a pena lembrar de todos aqueles olhares...
Eram apenas mais alguns, diante dos 2.354 que ainda vou encontrar pela vida. O copo ainda vai se encher muito. Ainda haverá muitos lugares, muias estruturas, que se tornarão mais do que isso...
Ah, como eu gostaria de acreditar nisso.
Sim, tudo continua como antes, mas parece que alguma coisa mudou. E sobre o que era o texto que eu estava escrevendo, mesmo?
Acho que era sobre alguém, alguma coisa, algum lugar...ou seria sobre o mistério do tempo? Ou sobre o copo de cerveja vazio?
Não sei. É hora de pedir a conta, o tempo acabou...
Parece que ainda posso ver. Caminhando pelos mesmos locais, ainda pareço escutar sua voz, lembrar do brilho dos seus olhos. E quem sabe, daquela risada a cada piada que eu fazia...
Mas não, agora é tarde. Não há mais ninguém. Só sobrou a estrutura. O restaurante, o bar, o ponto do ônibus, o posto de gasolina. O copo vazio...
Quantas vezes ele esteve cheio?
Não sei, perdi a conta. Foram muitas. Bastava ficar vazio para se encher novamente. Não chegava a ser um passe de mágica, não era tão assim. Era mais uma coisa automática, um movimento direto. Mas sem a contrapartida da repetição pós-movimento, como naquele velho filme do Chaplin...
E que importa? Agora só sobrou o copo vazio. Tem cerveja perto, mas não tem mais a mesma graça. Sem o brilho daqueles olhos, perdeu toda a graça. Sem carro, não tem combustível.
E aqui estou eu, sentado, sozinho, olhando o céu e a próxima estrela brilhando. Me sentindo estranho por pensar num texto tão poético, tão romântico, se há dúvidas se realmente acredito em tudo isso.
Se o tempo que passou realmente passou, e se vale a pena lembrar de todos aqueles olhares...
Eram apenas mais alguns, diante dos 2.354 que ainda vou encontrar pela vida. O copo ainda vai se encher muito. Ainda haverá muitos lugares, muias estruturas, que se tornarão mais do que isso...
Ah, como eu gostaria de acreditar nisso.
Sim, tudo continua como antes, mas parece que alguma coisa mudou. E sobre o que era o texto que eu estava escrevendo, mesmo?
Acho que era sobre alguém, alguma coisa, algum lugar...ou seria sobre o mistério do tempo? Ou sobre o copo de cerveja vazio?
Não sei. É hora de pedir a conta, o tempo acabou...
Wednesday, January 13, 2010
O Largo - parte II
O ônibus fez a curva na Rua Bento Lisboa e cruzou os últimos metros até chegar à frente da Igreja Matriz da Glória.
Seria coincidência? Parece que foi ontem (e não foi?) que escrevi sobre um certo Largo do Machado, e aqui estou eu novamente.
Os tempos, é claro, mudaram. Me levantei e desci do ônibus, desligando o MP3, e cruzei os três degraus até a calçada.
Por ali, uma família que à primeira vista parecia de mendigos. Não, não eram: era gente esperando o ônibus. Fui vítima do meu próprio preconceito. Isso era uma coisa que não existia no "velho Largo"...
Deixando essas ideias estranhas para trás, segui até o sinal e atravessei a rua, chegando à praça, esse local onde o Largo é mais Largo.
São seis horas, um dos meus horários preferidos. Daqueles onde não é mais dia e ainda não foi noite. Sob as luzes dos postes acesas, o movimento é intenso. Gente vai e vem. Pessoas conversam. Crianças brincam, velhinhos jogam cartas, trocadores pegam água, motoristas cospem no chão, estudantes seguem rumo a algum lugar que certamente não me dirão qual é.
A essa altura do campeonato, a velha galeria do Condor já acendeu suas luzes, assim como as lojas do outro lado da rua. E estou chegando mais perto do metrô. E há mais gente andando, correndo, falando...
Às vezes tenho a sensação de viver num mundo à parte. Como seria possível que, de um simples passeio, alguém caminhasse o tempo inteiro imaginando a cena, capaz de descrevê-la depois? Não sei, realmente, devo ser um caso raro de loucura.
Até porque esse último parágrafo não fez qualquer sentido. Ou não.
Mas a praça já chegou ao fim, e a hora é de atravessar a rua. Por fora. Esse não é um bom local para circular assim, como se tudo estivesse bem e nada fosse um problema. Aliás, não só aqui como em todo o Rio.
Deixando isso para lá, sigo em frente, até a hora de atravessar de novo a Rua do Catete. Esse é o ponto onde o Largo deixa de ser Largo e passa a ser alguma coisa que ninguém sabe bem o que é.
E não adianta perguntar à prefeitura, ela coloca no IPTU o bairro mais caro.
Enfim, muitos metros depois, o destino está selado. Agora é hora do primeiro chope...
Seria coincidência? Parece que foi ontem (e não foi?) que escrevi sobre um certo Largo do Machado, e aqui estou eu novamente.
Os tempos, é claro, mudaram. Me levantei e desci do ônibus, desligando o MP3, e cruzei os três degraus até a calçada.
Por ali, uma família que à primeira vista parecia de mendigos. Não, não eram: era gente esperando o ônibus. Fui vítima do meu próprio preconceito. Isso era uma coisa que não existia no "velho Largo"...
Deixando essas ideias estranhas para trás, segui até o sinal e atravessei a rua, chegando à praça, esse local onde o Largo é mais Largo.
São seis horas, um dos meus horários preferidos. Daqueles onde não é mais dia e ainda não foi noite. Sob as luzes dos postes acesas, o movimento é intenso. Gente vai e vem. Pessoas conversam. Crianças brincam, velhinhos jogam cartas, trocadores pegam água, motoristas cospem no chão, estudantes seguem rumo a algum lugar que certamente não me dirão qual é.
A essa altura do campeonato, a velha galeria do Condor já acendeu suas luzes, assim como as lojas do outro lado da rua. E estou chegando mais perto do metrô. E há mais gente andando, correndo, falando...
Às vezes tenho a sensação de viver num mundo à parte. Como seria possível que, de um simples passeio, alguém caminhasse o tempo inteiro imaginando a cena, capaz de descrevê-la depois? Não sei, realmente, devo ser um caso raro de loucura.
Até porque esse último parágrafo não fez qualquer sentido. Ou não.
Mas a praça já chegou ao fim, e a hora é de atravessar a rua. Por fora. Esse não é um bom local para circular assim, como se tudo estivesse bem e nada fosse um problema. Aliás, não só aqui como em todo o Rio.
Deixando isso para lá, sigo em frente, até a hora de atravessar de novo a Rua do Catete. Esse é o ponto onde o Largo deixa de ser Largo e passa a ser alguma coisa que ninguém sabe bem o que é.
E não adianta perguntar à prefeitura, ela coloca no IPTU o bairro mais caro.
Enfim, muitos metros depois, o destino está selado. Agora é hora do primeiro chope...
Wednesday, January 06, 2010
Largo
Saudade do Largo do Machado.
Não do Largo de hoje, deserto à noite, silencioso demais, sujo demais. Saudade de um Largo de outros tempos, outra época, que, se não era melhor - e talvez realmente não fosse - ao menos parecia muito.
Tenho um carinho especial por esse pedaço de mundo entre Flamengo, Laranjeiras e Catete, que consegue a mágica de não ser nenhum dos três. E tudo começou faz tempo, faz tempo...
Lembro do som da velha gaita que eu nunca aprendi a tocar. E de uma janela - tinha uma mesa em frente? - por onde entrava o sol escaldante das quatro da tarde, que batia no meu rosto com força e me fazia suar. Mas quem disse que eu desistia de tentar continuar tocando a gaita?
E depois que o sol descia, ali pelas cinco horas, era hora do passeio - que deve ter acontecido uma ou duas vezes. Mas valia a pena. Seguia para comer um folheado de queijo em uma loja chamada Frère Jacques. Ia de mãos dadas com meu pai, ansioso pelo folheado. E ele ia cantando, em francês, a música que tinha o mesmo nome da loja:
Frère Jacques, frère Jacques,
Dormez-vous? Dormez-vous?
Sonnez les matines! Sonnez les matines!
Din, dan, don. Din, dan, don.
E eu cantava, mesmo que meio sem saber o que era nem entender uma palavra. Mais tarde, a loja do folheado acabou. E ele foi trocado por um quibe. O quibe do árabe também era mais do que especial. Mas uma certa palha-de-aço no recheio acabou com a magia da coisa..
Saudade do Largo do Machado.
Não o Largo do Machado só dos folheados e dos quibes. Mas também o da loja de vídeos. Tinha um que de especial, não era uma loja de vídeo como as outras. A começar pelo fato de que eu raramente ia lá. E a continuar pelo fato de que parecia ser maior e mais farta do que qualquer outra videolocadora.
Já achei coisas ali do arco da velha. Era capaz de perder horas ali. No início não era assim: eram apenas duas fileiras de filmes, uma em cima e outra embaixo, naquelas capinhas plásticas que tinham um papelzinho preso nelas. Se a gente queria o filme, tinha que escolher, tirar o papelzinho respectivo e entregar no caixa pra receber a fita.
Aos poucos, a coisa mudou. As duas fileiras viraram cinco, dez, quinze, vinte. Ganharam um subsolo. As capinhas plásticas com papelzinho foram trocadas pelas respectivas fitas. Agora não tinha mais risco de entregar o papelzinho errado, receber uma fita diferente da escolhida e descobrir isso só chegando em casa.
E foi assim que os filmes se multiplicaram, e pude encontrar verdadeiras raridades. Mas o tempo passou, e as fitas começaram a virar DVDs, até sumirem. Hoje só tem DVDs. Coincidência ou não, nunca mais voltei...
Saudade do Largo do Machado.
Não só o Largo dos folheados, dos quibes, da videolocadora, da Sendas (hein?), da Galeria do Condor, da Parmê. Mas também o Largo do velho cinema da galeria do Condor. Por ali passaram várias fitas que não vou esquecer: Professor Aloprado, Noviço Rebelde, O Sexto Dia...
Tinha um ar diferente, de cinema antigo, escondido. Hoje nem existe mais, virou igreja...
Saudade do Largo do Machado não só de lojas, cinemas, lanchonetes, mas de Papai Noel. Era lá que eu esperava o Bom Velhinho, em uma casa mais do que especial. E durante anos foram assim. Aquele apartamento na Rua Machado de Assis virou uma espécie de segunda casa do Noel (o velhinho, não o músico).
É...saudade do Largo do Machado.
Não do Largo de hoje, deserto à noite, silencioso demais, sujo demais. Saudade de um Largo de outros tempos, outra época, que, se não era melhor - e talvez realmente não fosse - ao menos parecia muito.
Tenho um carinho especial por esse pedaço de mundo entre Flamengo, Laranjeiras e Catete, que consegue a mágica de não ser nenhum dos três. E tudo começou faz tempo, faz tempo...
Lembro do som da velha gaita que eu nunca aprendi a tocar. E de uma janela - tinha uma mesa em frente? - por onde entrava o sol escaldante das quatro da tarde, que batia no meu rosto com força e me fazia suar. Mas quem disse que eu desistia de tentar continuar tocando a gaita?
E depois que o sol descia, ali pelas cinco horas, era hora do passeio - que deve ter acontecido uma ou duas vezes. Mas valia a pena. Seguia para comer um folheado de queijo em uma loja chamada Frère Jacques. Ia de mãos dadas com meu pai, ansioso pelo folheado. E ele ia cantando, em francês, a música que tinha o mesmo nome da loja:
Frère Jacques, frère Jacques,
Dormez-vous? Dormez-vous?
Sonnez les matines! Sonnez les matines!
Din, dan, don. Din, dan, don.
E eu cantava, mesmo que meio sem saber o que era nem entender uma palavra. Mais tarde, a loja do folheado acabou. E ele foi trocado por um quibe. O quibe do árabe também era mais do que especial. Mas uma certa palha-de-aço no recheio acabou com a magia da coisa..
Saudade do Largo do Machado.
Não o Largo do Machado só dos folheados e dos quibes. Mas também o da loja de vídeos. Tinha um que de especial, não era uma loja de vídeo como as outras. A começar pelo fato de que eu raramente ia lá. E a continuar pelo fato de que parecia ser maior e mais farta do que qualquer outra videolocadora.
Já achei coisas ali do arco da velha. Era capaz de perder horas ali. No início não era assim: eram apenas duas fileiras de filmes, uma em cima e outra embaixo, naquelas capinhas plásticas que tinham um papelzinho preso nelas. Se a gente queria o filme, tinha que escolher, tirar o papelzinho respectivo e entregar no caixa pra receber a fita.
Aos poucos, a coisa mudou. As duas fileiras viraram cinco, dez, quinze, vinte. Ganharam um subsolo. As capinhas plásticas com papelzinho foram trocadas pelas respectivas fitas. Agora não tinha mais risco de entregar o papelzinho errado, receber uma fita diferente da escolhida e descobrir isso só chegando em casa.
E foi assim que os filmes se multiplicaram, e pude encontrar verdadeiras raridades. Mas o tempo passou, e as fitas começaram a virar DVDs, até sumirem. Hoje só tem DVDs. Coincidência ou não, nunca mais voltei...
Saudade do Largo do Machado.
Não só o Largo dos folheados, dos quibes, da videolocadora, da Sendas (hein?), da Galeria do Condor, da Parmê. Mas também o Largo do velho cinema da galeria do Condor. Por ali passaram várias fitas que não vou esquecer: Professor Aloprado, Noviço Rebelde, O Sexto Dia...
Tinha um ar diferente, de cinema antigo, escondido. Hoje nem existe mais, virou igreja...
Saudade do Largo do Machado não só de lojas, cinemas, lanchonetes, mas de Papai Noel. Era lá que eu esperava o Bom Velhinho, em uma casa mais do que especial. E durante anos foram assim. Aquele apartamento na Rua Machado de Assis virou uma espécie de segunda casa do Noel (o velhinho, não o músico).
É...saudade do Largo do Machado.
Sunday, December 13, 2009
Crônica de um dia qualquer
Hoje é domingo.
Mas podia ser sábado. Ou quarta-feira. Ou...
O dia está cinza, chuvoso, mas no meu quarto está batendo uma brisa fresca, gostosa, que vem com aquele cheiro de dia frio. Cheiro de dia frio...devo ser o único que parou para pensar nisso.
E nada do telefone tocar.
Falei com ela ontem. Ela me jurou que ia ligar hoje e me fez jurar que não ia ser eu a ligar. Seria melhor assim. Eu quis insistir, saber o porque, mas ela não me disse. Teimou, bateu o pé e prometeu que ela ia me telefonar. Me fez jurar que não ligaria.
Tudo bem. Pedido esquisito...estranho...mas nada que não possa ser feito. Aliás, por que é mesmo que é um pedido estranho?
Não sei, e nem faz diferença. O que importa é que ficou combinado assim: ela me ligaria assim que pudesse. Queria combinar tudo o quanto antes. Tudo bem, fiquei de esperar.
Se hoje fizesse sol em vez de chuva, eu poderia dizer que o sol já vai alto no céu. Mas hoje nem essa figura poética posso usar, porque não tem sol. Por acaso será que "a chuva vai alto no céu" ficaria bem nessa parte?
Não, não mesmo.
E nada do telefone tocar.
Melhor tentar ler alguma coisa. Pego um livro, folheio. É inútil, os pensamentos viajam, divagam. Se de repente a cabeça imagina um cavaleiro medieval de espada em punho e elmo na cabeça, montado imponente em seu cavalo, de repente ele vira fumaça e vejo aquele rosto, ali, flutuando, a cabeça vai longe. Tento ler, mas as palavras começam a perder o sentido, e de repente, percebo que li três páginas e não estou entendendo mais nada.
Volta e meia a cabeça se vira para o celular, ali, em pé no suporte, em cima da escrivaninha.
E nada dele tocar.
Desisto de ler, é inútil. Boto o livro de lado, vou procurar o que fazer. Quem sabe ir até a cozinha, beber alguma coisa.
Pego um copo e uma jarra de água, e estou prestes a servir, quando escuto um bip.
Largo tudo, saio correndo, vou ver o que é. Agora é!
Agora é, realmente...o computador. Foi um apito, indicando o fim de mais um download.
E nada do telefone tocar.
À medida que o tempo passa, pensamentos e palavras parecem se perder. A televisão parece sempre a mesma, nenhuma notícia chama atenção no jornal, e na internet o muito que há para fazer se revela chato, inútil. Textos e informações se repetem, e parece que tenho lido os mesmos sites há mais de uma semana.
Agora as horas já vão longe, muito longe, a chuva continua caindo, o frio continua inundando o quarto, e parece que simplesmente não há mais o que fazer para passar o tempo.
Bem, eu poderia adiantar o relógio, quem sabe...
Não, deixa pra lá. Podia talvez assistir um DVD. Ou sair para dar uma volta, esfriar a cabeça. E levaria o celular. E não haveria mal algum...se ela
ligasse, eu atenderia do mesmo jeito, e estaria tudo resolvido.
Bah, mas tá chovendo. Andar na chuva é ruim demais. Melhor ficar aqui, mesmo.
E nada do telefone tocar.
O tempo passou, a chuva se foi e o dia também. Mas o frio continua inundando o quarto, disputando espaço com a minha própria ansiedade. Páreo duro...
A noite caiu, as horas avançaram, e nada. Eu deveria ter ligado. Deveria ter dito tudo o que ainda não disse...ou não quis dizer...ou deveria ter dito que queria dizer...
Seja como for, agora é tarde demais. Melhor desligar o celular e ir dormir.
Pego o telefone, abro o flip...
E dou uma gargalhada.
Daquelas de fazer os vidros estremecerem, e a poeira levantar do chão limpo.
Olho de novo o telefone e continuo rindo.
Só rindo, mesmo.
Como ela poderia ter ligado se esqueci de ligar o telefone?
Aliás, ela ligou. Um monte de vezes.
Mas talvez agora seja tarde demais...
Mas podia ser sábado. Ou quarta-feira. Ou...
O dia está cinza, chuvoso, mas no meu quarto está batendo uma brisa fresca, gostosa, que vem com aquele cheiro de dia frio. Cheiro de dia frio...devo ser o único que parou para pensar nisso.
E nada do telefone tocar.
Falei com ela ontem. Ela me jurou que ia ligar hoje e me fez jurar que não ia ser eu a ligar. Seria melhor assim. Eu quis insistir, saber o porque, mas ela não me disse. Teimou, bateu o pé e prometeu que ela ia me telefonar. Me fez jurar que não ligaria.
Tudo bem. Pedido esquisito...estranho...mas nada que não possa ser feito. Aliás, por que é mesmo que é um pedido estranho?
Não sei, e nem faz diferença. O que importa é que ficou combinado assim: ela me ligaria assim que pudesse. Queria combinar tudo o quanto antes. Tudo bem, fiquei de esperar.
Se hoje fizesse sol em vez de chuva, eu poderia dizer que o sol já vai alto no céu. Mas hoje nem essa figura poética posso usar, porque não tem sol. Por acaso será que "a chuva vai alto no céu" ficaria bem nessa parte?
Não, não mesmo.
E nada do telefone tocar.
Melhor tentar ler alguma coisa. Pego um livro, folheio. É inútil, os pensamentos viajam, divagam. Se de repente a cabeça imagina um cavaleiro medieval de espada em punho e elmo na cabeça, montado imponente em seu cavalo, de repente ele vira fumaça e vejo aquele rosto, ali, flutuando, a cabeça vai longe. Tento ler, mas as palavras começam a perder o sentido, e de repente, percebo que li três páginas e não estou entendendo mais nada.
Volta e meia a cabeça se vira para o celular, ali, em pé no suporte, em cima da escrivaninha.
E nada dele tocar.
Desisto de ler, é inútil. Boto o livro de lado, vou procurar o que fazer. Quem sabe ir até a cozinha, beber alguma coisa.
Pego um copo e uma jarra de água, e estou prestes a servir, quando escuto um bip.
Largo tudo, saio correndo, vou ver o que é. Agora é!
Agora é, realmente...o computador. Foi um apito, indicando o fim de mais um download.
E nada do telefone tocar.
À medida que o tempo passa, pensamentos e palavras parecem se perder. A televisão parece sempre a mesma, nenhuma notícia chama atenção no jornal, e na internet o muito que há para fazer se revela chato, inútil. Textos e informações se repetem, e parece que tenho lido os mesmos sites há mais de uma semana.
Agora as horas já vão longe, muito longe, a chuva continua caindo, o frio continua inundando o quarto, e parece que simplesmente não há mais o que fazer para passar o tempo.
Bem, eu poderia adiantar o relógio, quem sabe...
Não, deixa pra lá. Podia talvez assistir um DVD. Ou sair para dar uma volta, esfriar a cabeça. E levaria o celular. E não haveria mal algum...se ela
ligasse, eu atenderia do mesmo jeito, e estaria tudo resolvido.
Bah, mas tá chovendo. Andar na chuva é ruim demais. Melhor ficar aqui, mesmo.
E nada do telefone tocar.
O tempo passou, a chuva se foi e o dia também. Mas o frio continua inundando o quarto, disputando espaço com a minha própria ansiedade. Páreo duro...
A noite caiu, as horas avançaram, e nada. Eu deveria ter ligado. Deveria ter dito tudo o que ainda não disse...ou não quis dizer...ou deveria ter dito que queria dizer...
Seja como for, agora é tarde demais. Melhor desligar o celular e ir dormir.
Pego o telefone, abro o flip...
E dou uma gargalhada.
Daquelas de fazer os vidros estremecerem, e a poeira levantar do chão limpo.
Olho de novo o telefone e continuo rindo.
Só rindo, mesmo.
Como ela poderia ter ligado se esqueci de ligar o telefone?
Aliás, ela ligou. Um monte de vezes.
Mas talvez agora seja tarde demais...
Saturday, December 05, 2009
Perfeito
Enquanto a inspiração não vem, fiquem com a poesia incrível de Louis Armstrong em What a Wonderful World.
Eu vejo as árvores verdes, rosas vermelhas também
Eu as vejo florescer para nós dois
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso
Eu vejo os céus azuis e as nuvens tão brancas
O brilho abençoado do dia, e a escuridão sagrada da noite
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso
As cores do arco-íris, tão bonitas nos céus
Estão também nos rostos das pessoas que se vão
Vejo amigos apertando as mãos, dizendo: "como você vai?"
Eles realmente estão dizendo: "eu te amo!"
Eu ouço bebês chorando, eu os vejo crescer
Eles aprenderão muito mais que eu jamais saberei
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso
Sim, eu penso comigo... que mundo maravilhoso!
Eu vejo as árvores verdes, rosas vermelhas também
Eu as vejo florescer para nós dois
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso
Eu vejo os céus azuis e as nuvens tão brancas
O brilho abençoado do dia, e a escuridão sagrada da noite
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso
As cores do arco-íris, tão bonitas nos céus
Estão também nos rostos das pessoas que se vão
Vejo amigos apertando as mãos, dizendo: "como você vai?"
Eles realmente estão dizendo: "eu te amo!"
Eu ouço bebês chorando, eu os vejo crescer
Eles aprenderão muito mais que eu jamais saberei
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso
Sim, eu penso comigo... que mundo maravilhoso!
Monday, November 30, 2009
Para ler e refletir
Transforme as resoluções de ano novo em resoluções de ano inteiro.
Deseje todos os dias a todos que você gosta, e a você mesmo, tudo que se deseja de bom em dezembro.
Viva mais o espírito do Natal nos aniversários, reuniões de amigos, encontros, passeios, viagens.
Ria mais, do mesmo jeito que você ri (ou costumava rir, ou pretende rir, ou tem vontade de rir) nas noites dos dias 24 e 31.
Organize festas, encontros, passeios e viagens com a mesma alegria do fim do ano.
Mande mais cartões a quem você gosta, mesmo que não sejam de Feliz Natal ou Próspero Ano Novo.
Deixe seus problemas um pouco de lado assim como na hora em que estouram os fogos no céu.
Brinde mais com os amigos, a família, os agregados, os conhecidos, os amores, os amantes, os amados.
Reuna mais a família em volta da mesa, mesmo que seja para uma simples conversa.
Dê mais sorrisos espontâneos, daquele jeito que se faz ao ver as crianças abrirem os presentes do Papai Noel.
Enfeite e arrume mais a casa, nem que seja com uma limpeza, do jeito que você faz quando o ano termina.
Ouça mais músicas especiais, em datas mais do que especiais (embora não seja preciso ouvir Bate o Sino no Dia das Mães).
Seja mais Papai Noel durante todo o ano, mesmo que seus presentes sejam um sorriso, um abraço, uma palavra de conforto...
Faça mais promessas, mas dê preferência às que você possa cumprir.
Descanse mais e mais gostoso, o quanto for possível, como você faz no primeiro dia do ano.
Se organize mais para evitar filas, trânsito e confusões, mesmo que seja no meio de abril em vez da véspera de Natal.
Renove todos os dias as esperanças e as expectativas assim como se faz em todo 31 de dezembro.
Use mais palavras e pensamentos positivos, daquele jeito que se faz quando o ano termina.
Lembre-se todos os dias, e não apenas quando novembro acaba, que o tempo está passando cada vez mais rápido.
Escreva e leia mais textos positivos de fim-de-ano...
Deseje todos os dias a todos que você gosta, e a você mesmo, tudo que se deseja de bom em dezembro.
Viva mais o espírito do Natal nos aniversários, reuniões de amigos, encontros, passeios, viagens.
Ria mais, do mesmo jeito que você ri (ou costumava rir, ou pretende rir, ou tem vontade de rir) nas noites dos dias 24 e 31.
Organize festas, encontros, passeios e viagens com a mesma alegria do fim do ano.
Mande mais cartões a quem você gosta, mesmo que não sejam de Feliz Natal ou Próspero Ano Novo.
Deixe seus problemas um pouco de lado assim como na hora em que estouram os fogos no céu.
Brinde mais com os amigos, a família, os agregados, os conhecidos, os amores, os amantes, os amados.
Reuna mais a família em volta da mesa, mesmo que seja para uma simples conversa.
Dê mais sorrisos espontâneos, daquele jeito que se faz ao ver as crianças abrirem os presentes do Papai Noel.
Enfeite e arrume mais a casa, nem que seja com uma limpeza, do jeito que você faz quando o ano termina.
Ouça mais músicas especiais, em datas mais do que especiais (embora não seja preciso ouvir Bate o Sino no Dia das Mães).
Seja mais Papai Noel durante todo o ano, mesmo que seus presentes sejam um sorriso, um abraço, uma palavra de conforto...
Faça mais promessas, mas dê preferência às que você possa cumprir.
Descanse mais e mais gostoso, o quanto for possível, como você faz no primeiro dia do ano.
Se organize mais para evitar filas, trânsito e confusões, mesmo que seja no meio de abril em vez da véspera de Natal.
Renove todos os dias as esperanças e as expectativas assim como se faz em todo 31 de dezembro.
Use mais palavras e pensamentos positivos, daquele jeito que se faz quando o ano termina.
Lembre-se todos os dias, e não apenas quando novembro acaba, que o tempo está passando cada vez mais rápido.
Escreva e leia mais textos positivos de fim-de-ano...
Friday, November 27, 2009
Duvida
A dúvida o torturava.
Era como uma fagulha enfiada em sua cabeça, latejando, doendo, incomodando.
Vinha assim há dias, semanas, meses. O que fazer? Como fazer? O que dizer? Afinal, o que significava tudo aquilo? Como não pensar naquilo? Como não dar àquilo mais importância do que realmente tinha?
Não sabia. Se esforçava, lutava, procurava entender, mas não conseguia. E quando ele menos esperava, lá estava ela de novo, incomodando. Aumentavam aos poucos as dificuldades para se concentrar.
Tentava se distrair, mas era pior. Não entendia, não sabia como, não conseguia ver, perceber, enxergar. Tinha a sensação de que já conhecia o caminho, sabia por onde ir ou não ir, mas mesmo assim insistia na parte mais difícil, no pior atalho.
O que fazer? Como fazer? O que dizer? E o que não dizer? E se tentasse algo diferente? E se ficasse calado? E se não dissesse nada? E se agisse mal? E se algo acontecesse? E se algo não acontecesse?
Tentava relaxar, brincar, esquecer, mas era impossível. Às vezes se pegava olhando para si mesmo e dizia...afinal, quem sou eu? Esse sou eu? Por que de repente eu ajo desse jeito? E por que passo o tempo me perguntando as coisas? E por que não mudo? E por que o tempo passa e eu continuo o mesmo?
Às vezes sentia vontade de chorar, botar tudo para fora. Em outras, não sabia se isso era o mais certo, o mais indicado, se estava agindo bem...às vezes se sentia como uma criança mimada, que diante da dúvida, da dificuldade, começava a chorar e reclamar...
Às vezes se sentia mal por se fazer tantas perguntas, achar tantas dificuldades, viver de forma tão intensa. Tinha vontade de mudar, mas aí se perguntava: devo mudar? Devo me transformar? Em que, por que e para que? De que forma? E se vou para algum lugar, para onde, como, por que, para que e de que forma?
Não sabia, não sabia, não entendia, não conseguia ver o porque...mesmo que ele estivesse na sua frente...não aceitava, continuava duvidando, perguntando, questionando, indagando...
Como a dúvida era fria e cruel. Mas, às vezes, ele se perguntava...
...será que era dúvida mesmo?
Era como uma fagulha enfiada em sua cabeça, latejando, doendo, incomodando.
Vinha assim há dias, semanas, meses. O que fazer? Como fazer? O que dizer? Afinal, o que significava tudo aquilo? Como não pensar naquilo? Como não dar àquilo mais importância do que realmente tinha?
Não sabia. Se esforçava, lutava, procurava entender, mas não conseguia. E quando ele menos esperava, lá estava ela de novo, incomodando. Aumentavam aos poucos as dificuldades para se concentrar.
Tentava se distrair, mas era pior. Não entendia, não sabia como, não conseguia ver, perceber, enxergar. Tinha a sensação de que já conhecia o caminho, sabia por onde ir ou não ir, mas mesmo assim insistia na parte mais difícil, no pior atalho.
O que fazer? Como fazer? O que dizer? E o que não dizer? E se tentasse algo diferente? E se ficasse calado? E se não dissesse nada? E se agisse mal? E se algo acontecesse? E se algo não acontecesse?
Tentava relaxar, brincar, esquecer, mas era impossível. Às vezes se pegava olhando para si mesmo e dizia...afinal, quem sou eu? Esse sou eu? Por que de repente eu ajo desse jeito? E por que passo o tempo me perguntando as coisas? E por que não mudo? E por que o tempo passa e eu continuo o mesmo?
Às vezes sentia vontade de chorar, botar tudo para fora. Em outras, não sabia se isso era o mais certo, o mais indicado, se estava agindo bem...às vezes se sentia como uma criança mimada, que diante da dúvida, da dificuldade, começava a chorar e reclamar...
Às vezes se sentia mal por se fazer tantas perguntas, achar tantas dificuldades, viver de forma tão intensa. Tinha vontade de mudar, mas aí se perguntava: devo mudar? Devo me transformar? Em que, por que e para que? De que forma? E se vou para algum lugar, para onde, como, por que, para que e de que forma?
Não sabia, não sabia, não entendia, não conseguia ver o porque...mesmo que ele estivesse na sua frente...não aceitava, continuava duvidando, perguntando, questionando, indagando...
Como a dúvida era fria e cruel. Mas, às vezes, ele se perguntava...
...será que era dúvida mesmo?
Tuesday, November 17, 2009
O sonhador e a menina
Aquele era um dia estranho.
Ele se lembrava que, quando saiu de casa, o dia estava cinza e nublado. Depois, fez sol. Em seguida, choveu e ventou. Agora estava sol e calor de novo.
Caminhando pela Avenida Rio Branco, se espremia em meio à multidão que passava pela Rua do Ouvidor para tentar chegar logo ao ponto do ônibus. Não que estivesse precisamente atrasado...mas estava cansado e queria chegar logo. Tinha a sensação que, se fizesse as coisas mais depressa, o dia passaria mais rápido e logo ele estaria em casa dormindo.
Em meio à multidão que circulava pela calçada, era difícil se mover rapidamente. O suor escorria por seu rosto, peito e braços, empapando a camisa pólo verde.
Ao cruzar a calçada para desviar de uma árvore, ele a viu.
Estava ali, em frente a uma galeria, com um bolo de panfletos na mão, tentando distribuí-los a quem passava. Vestia uma blusa branca justa e uma minissaia jeans, tinha os cabelos muito negros e cortados na altura do queixo. O rosto era de um ar muito simples, e ao mesmo tempo, muito forte, com dois belos olhos azuis brilhando quase que intensamente.
Ela não tinha sucesso em sua tarefa "panfletária": os pedestres, em meio ao corre-corre da hora do almoço, mal paravam para olhá-la.
Mas ele parou. De repente, esqueceu o cansaço, o calor, o corre-corre, a hora...e ficou ali, só observando.
Distraída, ela a princípio não percebeu nada. Mas, dali a pouco, ao se virar para tentar entregar um panfleto, seu olhar se cruzou com o dele. E os dois ficaram se observando. Tímida, ela sorriu discretamente e baixou o rosto, como se estivesse procurando alguma coisa no chão.
E ele continuou olhando fixamente, agora esboçando um leve sorriso, e foi se aproximando devagar, sem pressa nem preocupação, cruzando a avenida e desviando dos pedestres para olhá-la mais de perto. Já ela continuava a rir, sem-graça, e volta e meia o olhava...mas logo se distraía, baixava o rosto, voltava a distribuir seus panfletos.
Quando ele estava quase chegando perto dela, dois operários carregando uma enorme tábua de madeira atravessaram o caminho, tapando totalmente a visão.
Esperando pacientemente, ele teve vontade de quebrar logo a tábua para chegar do outro lado. Mas esperou. Aqueles segundos pareciam horas.
E finalmente, quando os operários passaram, levando sua enorme tábua...
...ela não estava mais lá.
Atônito, espantado e surpreso, ele olhou por todos os lados, procurando-a. Para onde ela teria ido em tão pouco tempo? Teria fugido? Se escondido? Mas como era possível...só haviam se passado alguns segundos, não, não era possível.
Enquanto isso, o tempo louco voltava a escurecer, e o vento anunciava uma nova chuva para muito breve...
Ele se lembrava que, quando saiu de casa, o dia estava cinza e nublado. Depois, fez sol. Em seguida, choveu e ventou. Agora estava sol e calor de novo.
Caminhando pela Avenida Rio Branco, se espremia em meio à multidão que passava pela Rua do Ouvidor para tentar chegar logo ao ponto do ônibus. Não que estivesse precisamente atrasado...mas estava cansado e queria chegar logo. Tinha a sensação que, se fizesse as coisas mais depressa, o dia passaria mais rápido e logo ele estaria em casa dormindo.
Em meio à multidão que circulava pela calçada, era difícil se mover rapidamente. O suor escorria por seu rosto, peito e braços, empapando a camisa pólo verde.
Ao cruzar a calçada para desviar de uma árvore, ele a viu.
Estava ali, em frente a uma galeria, com um bolo de panfletos na mão, tentando distribuí-los a quem passava. Vestia uma blusa branca justa e uma minissaia jeans, tinha os cabelos muito negros e cortados na altura do queixo. O rosto era de um ar muito simples, e ao mesmo tempo, muito forte, com dois belos olhos azuis brilhando quase que intensamente.
Ela não tinha sucesso em sua tarefa "panfletária": os pedestres, em meio ao corre-corre da hora do almoço, mal paravam para olhá-la.
Mas ele parou. De repente, esqueceu o cansaço, o calor, o corre-corre, a hora...e ficou ali, só observando.
Distraída, ela a princípio não percebeu nada. Mas, dali a pouco, ao se virar para tentar entregar um panfleto, seu olhar se cruzou com o dele. E os dois ficaram se observando. Tímida, ela sorriu discretamente e baixou o rosto, como se estivesse procurando alguma coisa no chão.
E ele continuou olhando fixamente, agora esboçando um leve sorriso, e foi se aproximando devagar, sem pressa nem preocupação, cruzando a avenida e desviando dos pedestres para olhá-la mais de perto. Já ela continuava a rir, sem-graça, e volta e meia o olhava...mas logo se distraía, baixava o rosto, voltava a distribuir seus panfletos.
Quando ele estava quase chegando perto dela, dois operários carregando uma enorme tábua de madeira atravessaram o caminho, tapando totalmente a visão.
Esperando pacientemente, ele teve vontade de quebrar logo a tábua para chegar do outro lado. Mas esperou. Aqueles segundos pareciam horas.
E finalmente, quando os operários passaram, levando sua enorme tábua...
...ela não estava mais lá.
Atônito, espantado e surpreso, ele olhou por todos os lados, procurando-a. Para onde ela teria ido em tão pouco tempo? Teria fugido? Se escondido? Mas como era possível...só haviam se passado alguns segundos, não, não era possível.
Enquanto isso, o tempo louco voltava a escurecer, e o vento anunciava uma nova chuva para muito breve...
Monday, November 16, 2009
O vidro
Antigamente ele não existia.
Em seu lugar, não sei o que ficava exatamente...mas acho que era um tapume de madeira. Isso, antes mesmo de existir um banco naquele local.
No tempo que ele não existia - e poxa, nem faz tanto tempo assim - tudo era tão diferente. As ideias eram tão diferentes. A angústia do dia passado parecia mais real, e a ansiedade pelo dia seguinte, maior. De certa forma, as preocupações seguiam pelo mesmo caminho.
Talvez as coisas fossem mais surpreendentes, menos estáveis, como o ônibus que surgia de repente na curva. Pudera: aquele era um tempo de construir, mas sem muita noção do que. Era um tempo de plantar sem saber o que seria colhido...poético isso.
No tempo em que aquele vidro não existia, tudo era muito diferente. Ou será que era menos igual?
Não sei. Mas o fato é que o momento da chegada do ônibus era mais imprevisível. Ou será que era o horário que variava sempre?
Também não sei. Mas fato é que, em algum momento, surgiu o vidro, foi-se o tapume. E o horário passou a ser mais ou menos o mesmo. E a espera do ônibus mudou...ganhou uma ajuda, um apoio. Agora já dá pra ver quando ele surge na curva, lá adiante, e a expectativa aumenta...
Será que um dia olharei para trás e direi o mesmo de hoje?
Em seu lugar, não sei o que ficava exatamente...mas acho que era um tapume de madeira. Isso, antes mesmo de existir um banco naquele local.
No tempo que ele não existia - e poxa, nem faz tanto tempo assim - tudo era tão diferente. As ideias eram tão diferentes. A angústia do dia passado parecia mais real, e a ansiedade pelo dia seguinte, maior. De certa forma, as preocupações seguiam pelo mesmo caminho.
Talvez as coisas fossem mais surpreendentes, menos estáveis, como o ônibus que surgia de repente na curva. Pudera: aquele era um tempo de construir, mas sem muita noção do que. Era um tempo de plantar sem saber o que seria colhido...poético isso.
No tempo em que aquele vidro não existia, tudo era muito diferente. Ou será que era menos igual?
Não sei. Mas o fato é que o momento da chegada do ônibus era mais imprevisível. Ou será que era o horário que variava sempre?
Também não sei. Mas fato é que, em algum momento, surgiu o vidro, foi-se o tapume. E o horário passou a ser mais ou menos o mesmo. E a espera do ônibus mudou...ganhou uma ajuda, um apoio. Agora já dá pra ver quando ele surge na curva, lá adiante, e a expectativa aumenta...
Será que um dia olharei para trás e direi o mesmo de hoje?
Monday, November 09, 2009
Cinco horas
Sempre me perguntei o que esse horário tem de mais. Sempre achei que ele era quase uma parte solta do dia - tipo manhã, tarde, cinco horas e noite.
Talvez o mais óbvio é que seja o horário em que muitas crianças saem do colégio. De uniforme, mochila às costas e companhia nem sempre agradável, circulam pelas ruas, pulando, correndo, brincando, seja sozinhas, com seus acompanhantes, umas com as outras, numa mistura de liberdade e a sensação de que logo estarão de volta no dia seguinte.
Em meio a tudo isso, o cheiro mais claro é o de pipoca. Aquela coisa meio óleo, meio sal, meio açúcar, meio doce, meio salgado, que pipoca de casa não tem e nunca terá. Aquele cheiro que sai de trás da lâmpada amarelada da carrocinha de pipoca, um eterno mistério - não existe pipoca melhor que a do pipoqueiro.
Em frente à padaria, o cheiro de pão às cinco da tarde é sempre muito claro. Não sei o que essa parte do dia tem de mais, mas parece que os cheiros ficam mais soltos. Nunca me ocorreu sentir cheiro de pipoca nem de pão ao passar as onze da manhã pela padaria/pipoqueiro. Mas se passar as cinco, lá estão eles.
Parece que as cinco horas há mais velhinhos caminhando nas ruas, mais cachorros com seus donos, mais gente voltando da praia, mais entregadores com suas bicicletas, mais carros circulando. Às vezes tenho a sensação de que todo mundo fica olhando o relógio, esperando dar cinco horas, para poder sair. Ou será que é só impressão minha?
Para quem não tem o privilégio da liberdade das ruas, do caminhar solto pelas calçadas, do ir e vir - é um horário propício para a prática do cooper, porque o sol já se foi e a noite não chegou - e encara o escritório, a repartição, a firma ou a empresa, cinco horas é o horário do "quase". Para quem entra cedo, então, é muito "quase": está "quase" na hora de ir embora, o trabalho está "quase" pronto, o dia está "quase" no fim, o happy hour é "quase" obrigatório, "quase" que eu não termino esse relatório antes do expediente...
E aos poucos, conforme os minutos passam, toda essa atmosfera vai se dissipando, e quando chega seis e meia, por aí, tudo começa a voltar ao normal...
Ou será que cinco horas é o normal e o resto do dia que é estranho?
Vai saber.
Talvez o mais óbvio é que seja o horário em que muitas crianças saem do colégio. De uniforme, mochila às costas e companhia nem sempre agradável, circulam pelas ruas, pulando, correndo, brincando, seja sozinhas, com seus acompanhantes, umas com as outras, numa mistura de liberdade e a sensação de que logo estarão de volta no dia seguinte.
Em meio a tudo isso, o cheiro mais claro é o de pipoca. Aquela coisa meio óleo, meio sal, meio açúcar, meio doce, meio salgado, que pipoca de casa não tem e nunca terá. Aquele cheiro que sai de trás da lâmpada amarelada da carrocinha de pipoca, um eterno mistério - não existe pipoca melhor que a do pipoqueiro.
Em frente à padaria, o cheiro de pão às cinco da tarde é sempre muito claro. Não sei o que essa parte do dia tem de mais, mas parece que os cheiros ficam mais soltos. Nunca me ocorreu sentir cheiro de pipoca nem de pão ao passar as onze da manhã pela padaria/pipoqueiro. Mas se passar as cinco, lá estão eles.
Parece que as cinco horas há mais velhinhos caminhando nas ruas, mais cachorros com seus donos, mais gente voltando da praia, mais entregadores com suas bicicletas, mais carros circulando. Às vezes tenho a sensação de que todo mundo fica olhando o relógio, esperando dar cinco horas, para poder sair. Ou será que é só impressão minha?
Para quem não tem o privilégio da liberdade das ruas, do caminhar solto pelas calçadas, do ir e vir - é um horário propício para a prática do cooper, porque o sol já se foi e a noite não chegou - e encara o escritório, a repartição, a firma ou a empresa, cinco horas é o horário do "quase". Para quem entra cedo, então, é muito "quase": está "quase" na hora de ir embora, o trabalho está "quase" pronto, o dia está "quase" no fim, o happy hour é "quase" obrigatório, "quase" que eu não termino esse relatório antes do expediente...
E aos poucos, conforme os minutos passam, toda essa atmosfera vai se dissipando, e quando chega seis e meia, por aí, tudo começa a voltar ao normal...
Ou será que cinco horas é o normal e o resto do dia que é estranho?
Vai saber.
Algo sobre o Leblon
Leblon.
Meu bairro já não parece mais o mesmo. Não sei o que mudou nele, ou talvez em mim. Mas meus passos são mais firmes agora, seja lá o que isso signifique.
Essas ruas nunca pareceram tão iluminadas, nem tão largas. Ao mesmo tempo, aqui ainda é possível ouvir um pouco do silêncio, fugir da sensação de cidade grande, nem que seja por míseros dez segundos. Se tempo é dinheiro, cada segundo vale muito, muito...
A música nos ouvidos não permite que se pense demais, nem que o silêncio seja maior do que alguns segundos. O som relaxa, distrai, faz esquecer. A vontade que tenho é cantar junto, mas tenho que lembrar sempre de controlar o movimento da boca e perceber se estou cantando alto demais. Mais maluco do que o costume é algo que não pretendo parecer.
Ou talvez não. Que talvez se danem essas pessoas que, ao ver a boca mexendo, me lancem olhares recriminatórios, de censura, duros, frios, como que me mandando ficar quieto. Odeio olhar de censura. Não sei porque todos me vêem desse jeito. Será que não é normal alguém pensar alto, cantar alto?
Às vezes tento prender as ideias na cabeça, mas é muita coisa. Preciso falar, dizer. E nem sempre escolho os melhores locais para isso. Sim, não devo lá ser muito normal...muito menos por escrever um texto sobre isso...
Os passos seguem tranquilos e firmes, andando pelo Leblon, alguma coisa meio sem rumo, sem norte, mas ao mesmo tempo, com um objetivo bem claro. E lá vai a música. E o carro que passou. E mais alguém com um cachorro. E o brilho do sol que passa pelas árvores e ilumina os prédios.
Não sei porque tanto cinza, tanto preto. Às vezes me sinto em uma selva de concreto (onde foi que já li isso?). Há algo que me incomoda em tudo isso. Meu bairro mudou, perdeu o ar bucólico de alguns textos atrás. Tampouco tem as sombras, o silêncio e o vento da madrugada. Agora parece simplesmente um caminho pelo qual sigo para chegar em casa.
Onde estarão a poesia e a prosa perdidas? E aquele olhar bonito, plástico? E as livrarias? E sim, a praia, sempre ela...não, não ela, não aqui, não agora.
Não agora.
Meu bairro já não parece mais o mesmo. Não sei o que mudou nele, ou talvez em mim. Mas meus passos são mais firmes agora, seja lá o que isso signifique.
Essas ruas nunca pareceram tão iluminadas, nem tão largas. Ao mesmo tempo, aqui ainda é possível ouvir um pouco do silêncio, fugir da sensação de cidade grande, nem que seja por míseros dez segundos. Se tempo é dinheiro, cada segundo vale muito, muito...
A música nos ouvidos não permite que se pense demais, nem que o silêncio seja maior do que alguns segundos. O som relaxa, distrai, faz esquecer. A vontade que tenho é cantar junto, mas tenho que lembrar sempre de controlar o movimento da boca e perceber se estou cantando alto demais. Mais maluco do que o costume é algo que não pretendo parecer.
Ou talvez não. Que talvez se danem essas pessoas que, ao ver a boca mexendo, me lancem olhares recriminatórios, de censura, duros, frios, como que me mandando ficar quieto. Odeio olhar de censura. Não sei porque todos me vêem desse jeito. Será que não é normal alguém pensar alto, cantar alto?
Às vezes tento prender as ideias na cabeça, mas é muita coisa. Preciso falar, dizer. E nem sempre escolho os melhores locais para isso. Sim, não devo lá ser muito normal...muito menos por escrever um texto sobre isso...
Os passos seguem tranquilos e firmes, andando pelo Leblon, alguma coisa meio sem rumo, sem norte, mas ao mesmo tempo, com um objetivo bem claro. E lá vai a música. E o carro que passou. E mais alguém com um cachorro. E o brilho do sol que passa pelas árvores e ilumina os prédios.
Não sei porque tanto cinza, tanto preto. Às vezes me sinto em uma selva de concreto (onde foi que já li isso?). Há algo que me incomoda em tudo isso. Meu bairro mudou, perdeu o ar bucólico de alguns textos atrás. Tampouco tem as sombras, o silêncio e o vento da madrugada. Agora parece simplesmente um caminho pelo qual sigo para chegar em casa.
Onde estarão a poesia e a prosa perdidas? E aquele olhar bonito, plástico? E as livrarias? E sim, a praia, sempre ela...não, não ela, não aqui, não agora.
Não agora.
Friday, November 06, 2009
Eu, a casa e o silêncio
Abri os olhos. Estava deitado de bruços sobre a cama, o rosto encharcado de suor. Nem um vento batia. Por uma fresta da janela, entrava um tímido raio de sol.
Me estiquei na cama, virei de barriga para cima e encostei a cabeça no travesseiro, também molhado de suor. Olhei o relógio na parede: quinze para as oito da manhã.
Era cedo ainda, meu desejo era dormir mais um pouco. Bocejei. Tentei fechar os olhos, pegar de novo no sono, mas nada. Não tinha mais vontade de dormir, embora tivesse sono. Ou seria o contrário?
Sem jeito, sentei na cama, me espreguicei, botei os óculos. Confirmei a hora e fiquei de pé.
Dei três passos até a porta do banheiro, entrei, fechei-a. Fiz minhas necessidades, lavei as mãos, o rosto, saí.
No silêncio da casa, apenas meus passos ecoavam. Todos dormiam profundamente, naquele estado de sono tão bonito de observar, de ver. Mas temo acordar as pessoas quando olho demais. Então voltei à cozinha, abri a porta e saí para o quintal.
Fazia um dia lindo, maravilhoso, de sol escaldante, céu azul sem uma nuvenzinha no céu. E nenhum barulho, nenhum ruído, nada. Na casa quase vazia, apenas o silêncio. Nem lembrava o mesmo cenário há três dias atrás.
Hoje é o dia
Eu quase posso tocar o silêncio
A casa vazia
Só as coisas que você não quis
Me fazem companhia...
Eu fico à vontade com a sua ausência...
A música do Capital Inicial veio, assim, discreta, sem pedir. Sem rádio, sem nada. Veio na cabeça. Era a síntese daquele momento tão estranho e tão singular. Só essa parte. Depois disso, perdia o sentido, a razão, a força...
Caminhando pela varanda de chão de madeira, me aproximei da mesa vermelha com quatro cadeiras em volta. A mesma que estava cheia e movimentada nos últimos dias. Agora não havia ninguém. Pelo chão, uma parte do jornal de domingo estava caída, suja, rasgada. Em uma das cadeiras, o resto do jornal. Lido, relido, remexido, agora já não servia para mais nada.
Em cima da mesa, já não havia nada. Minto: havia um pedaço de linguiça, um que caíra do prato no dia anterior, e que provavelmente não fora limpo. Curiosamente, não havia formigas em volta.
Deixei a mesa lá e fui me sentar no sofá, mais adiante. Olhar o céu. Pensar um pouco no que fazer. Era cedo para ir embora e tarde demais para ficar...
Depois de quatro segundos sentado, cansei e decidi fazer alguma coisa. Voltei ao quarto, enfiei a mão na mala e procurei o livro que havia trazido.
Quase pude lembrar das palavras de minha mãe dizendo que aquele livro era muito pesado para uma viagem tão curta, e que dificilmente teria tempo para lê-lo.
De certa forma, faltara tempo. Mas agora não. Agora tinha todo o tempo do mundo.
Voltei ao sofá, deitei e comecei a ler. Até que chegou a hora de ir embora.
Despedidas, beijos, abraços. E a casa ficou um pouco mais vazia...
Me estiquei na cama, virei de barriga para cima e encostei a cabeça no travesseiro, também molhado de suor. Olhei o relógio na parede: quinze para as oito da manhã.
Era cedo ainda, meu desejo era dormir mais um pouco. Bocejei. Tentei fechar os olhos, pegar de novo no sono, mas nada. Não tinha mais vontade de dormir, embora tivesse sono. Ou seria o contrário?
Sem jeito, sentei na cama, me espreguicei, botei os óculos. Confirmei a hora e fiquei de pé.
Dei três passos até a porta do banheiro, entrei, fechei-a. Fiz minhas necessidades, lavei as mãos, o rosto, saí.
No silêncio da casa, apenas meus passos ecoavam. Todos dormiam profundamente, naquele estado de sono tão bonito de observar, de ver. Mas temo acordar as pessoas quando olho demais. Então voltei à cozinha, abri a porta e saí para o quintal.
Fazia um dia lindo, maravilhoso, de sol escaldante, céu azul sem uma nuvenzinha no céu. E nenhum barulho, nenhum ruído, nada. Na casa quase vazia, apenas o silêncio. Nem lembrava o mesmo cenário há três dias atrás.
Hoje é o dia
Eu quase posso tocar o silêncio
A casa vazia
Só as coisas que você não quis
Me fazem companhia...
Eu fico à vontade com a sua ausência...
A música do Capital Inicial veio, assim, discreta, sem pedir. Sem rádio, sem nada. Veio na cabeça. Era a síntese daquele momento tão estranho e tão singular. Só essa parte. Depois disso, perdia o sentido, a razão, a força...
Caminhando pela varanda de chão de madeira, me aproximei da mesa vermelha com quatro cadeiras em volta. A mesma que estava cheia e movimentada nos últimos dias. Agora não havia ninguém. Pelo chão, uma parte do jornal de domingo estava caída, suja, rasgada. Em uma das cadeiras, o resto do jornal. Lido, relido, remexido, agora já não servia para mais nada.
Em cima da mesa, já não havia nada. Minto: havia um pedaço de linguiça, um que caíra do prato no dia anterior, e que provavelmente não fora limpo. Curiosamente, não havia formigas em volta.
Deixei a mesa lá e fui me sentar no sofá, mais adiante. Olhar o céu. Pensar um pouco no que fazer. Era cedo para ir embora e tarde demais para ficar...
Depois de quatro segundos sentado, cansei e decidi fazer alguma coisa. Voltei ao quarto, enfiei a mão na mala e procurei o livro que havia trazido.
Quase pude lembrar das palavras de minha mãe dizendo que aquele livro era muito pesado para uma viagem tão curta, e que dificilmente teria tempo para lê-lo.
De certa forma, faltara tempo. Mas agora não. Agora tinha todo o tempo do mundo.
Voltei ao sofá, deitei e comecei a ler. Até que chegou a hora de ir embora.
Despedidas, beijos, abraços. E a casa ficou um pouco mais vazia...
Thursday, November 05, 2009
O sonhador, o "talvez" e o mar
"Beijo, tchau".
Ela desligou e ele ficou ali, parado, estático, meio sem saber o que fazer. Tinha vontade de chorar, e ao mesmo tempo, raiva de si mesmo.
Ela não tinha ideia do quanto ele se dedicara. Comprara flores, chocolates. Fizera questão de mandar entregar, com direito à cartão e tudo. Ligara para ela várias vezes. Marcara tudo.
Sim, quando ela sofreu, da última vez, quem estava a seu lado? Ele. Todo o apoio, toda a atenção. Dias e dias de telefone, e-mails, MSN.
Agora, tudo parecia terminado, e olha que era antes mesmo de começar. Com o telefone em uma das mãos e o buquê na outra, não sabia direito nem o que fazer. O que pensar. Como reagir.
Não era a primeira, nem seria a ultima vez. Mas ele tinha a sensação de já ter visto aquele filme outras vezes. E não falava de uma, mas sim de várias.
Tinha vontade de chorar, raiva de si mesmo, angústia, aflição, desapontamento. E de novo aquela sensação de falta de sorte, de que tudo dava sempre errado...
Ainda meio sem saber o que fazer, guardou o telefone em um bolso e meteu a mão no outro, à procura das chaves. Achou. Tirou a chave, e ainda meio cambaleante, o buquê para baixo, seguiu até a porta da rua. Abriu, espiou dos dois lados e saiu.
Desceu, tentou passar rapidamente pela portaria, sem ser visto. Não deu: quase esbarrou com o porteiro. Ficou sem-graça, tentou disfarçar, deu a volta e abriu a porta da rua.
Sentiu o vento gelado bater em seu rosto e se sentiu um pouco melhor. Para onde, agora?
Não fazia ideia, não sabia. Foi quando se lembrou do mar. Quando era pequeno e estava triste, seu pai costumava levá-lo para ir ver o mar. O barulho das ondas, a água batendo na areia, tudo isso costumava acalmá-lo.
Sim, a praia. Tinha esse privilégio. Morava perto. E sentindo voltar um pouco da confiança, seguiu para lá.
Aquela hora, não havia ninguém. A noite já havia caído há tempos, e olhando no horizonte, via apenas a branca faixa de areia e o mar batendo com força.
Desceu dois degraus da escada que levava à areia, se sentou, botou o buquê de lado e ficou olhando o mar, ouvindo o barulho das ondas, sentindo aquele vento gelado bater no rosto.
Tentava pensar, mas era difícil continuar. Como um texto que chega a um ponto onde não se sabe para onde vai, ele também não sabia mais o que fazer. Tentava pensar, arrumar as ideias, mudar a mente, mas nada funcionava.
Talvez o problema fosse justamente esse: pensar demais. Quanto tempo havia perdido pensando em como conquistá-la...ela e todas as outras...quanto tempo pensara se lamentando por tudo o que acontecera...e quanta coisa deixou de fazer nesse meio tempo...
Largou o buquê ali mesmo, botou as mãos nos bolsos e começou a voltar para casa.
Ela desligou e ele ficou ali, parado, estático, meio sem saber o que fazer. Tinha vontade de chorar, e ao mesmo tempo, raiva de si mesmo.
Ela não tinha ideia do quanto ele se dedicara. Comprara flores, chocolates. Fizera questão de mandar entregar, com direito à cartão e tudo. Ligara para ela várias vezes. Marcara tudo.
Sim, quando ela sofreu, da última vez, quem estava a seu lado? Ele. Todo o apoio, toda a atenção. Dias e dias de telefone, e-mails, MSN.
Agora, tudo parecia terminado, e olha que era antes mesmo de começar. Com o telefone em uma das mãos e o buquê na outra, não sabia direito nem o que fazer. O que pensar. Como reagir.
Não era a primeira, nem seria a ultima vez. Mas ele tinha a sensação de já ter visto aquele filme outras vezes. E não falava de uma, mas sim de várias.
Tinha vontade de chorar, raiva de si mesmo, angústia, aflição, desapontamento. E de novo aquela sensação de falta de sorte, de que tudo dava sempre errado...
Ainda meio sem saber o que fazer, guardou o telefone em um bolso e meteu a mão no outro, à procura das chaves. Achou. Tirou a chave, e ainda meio cambaleante, o buquê para baixo, seguiu até a porta da rua. Abriu, espiou dos dois lados e saiu.
Desceu, tentou passar rapidamente pela portaria, sem ser visto. Não deu: quase esbarrou com o porteiro. Ficou sem-graça, tentou disfarçar, deu a volta e abriu a porta da rua.
Sentiu o vento gelado bater em seu rosto e se sentiu um pouco melhor. Para onde, agora?
Não fazia ideia, não sabia. Foi quando se lembrou do mar. Quando era pequeno e estava triste, seu pai costumava levá-lo para ir ver o mar. O barulho das ondas, a água batendo na areia, tudo isso costumava acalmá-lo.
Sim, a praia. Tinha esse privilégio. Morava perto. E sentindo voltar um pouco da confiança, seguiu para lá.
Aquela hora, não havia ninguém. A noite já havia caído há tempos, e olhando no horizonte, via apenas a branca faixa de areia e o mar batendo com força.
Desceu dois degraus da escada que levava à areia, se sentou, botou o buquê de lado e ficou olhando o mar, ouvindo o barulho das ondas, sentindo aquele vento gelado bater no rosto.
Tentava pensar, mas era difícil continuar. Como um texto que chega a um ponto onde não se sabe para onde vai, ele também não sabia mais o que fazer. Tentava pensar, arrumar as ideias, mudar a mente, mas nada funcionava.
Talvez o problema fosse justamente esse: pensar demais. Quanto tempo havia perdido pensando em como conquistá-la...ela e todas as outras...quanto tempo pensara se lamentando por tudo o que acontecera...e quanta coisa deixou de fazer nesse meio tempo...
Largou o buquê ali mesmo, botou as mãos nos bolsos e começou a voltar para casa.
Tuesday, October 13, 2009
Madrugada
A sombra da última cerveja já ficou para trás. Os pedidos insistentes para que eu ficasse, também.
É bem verdade que a vontade era ficar. Tomar mais uma, mais duas, mais três. Mas não posso. Não hoje.
Enquanto caminhava pela praça deserta, o vento balançou as folhas e fez com que as sombras se mexessem. Enquanto isso, na cabeça, outras sombras se movem.
“Volta. Corre lá. Ainda dá tempo”.
Não. Não hoje, digo baixinho, sob pena de dar de cara com alguém e parecer um louco falando sozinho no meio da madrugada.
Não hoje...
E atravesso a praça rápido, apertando o passo, talvez por medo de marginais, talvez por medo de não agüentar e acabar voltando para tomar mais uma.
Que é sempre a última e acaba sendo sempre a primeira...de muitas.
Agora, deixando a sombra da praça e as luzes dos prédios, é tarde demais. Não existe mais volta. Nem tampouco barulho de folhas, nem sombras se movendo, nem seguranças e porteiros à espreita.
Apenas o silêncio, o silêncio calmo, relaxante e assustador da madrugada.
Me preparo para atravessar a rua, mas lá adiante uma “pequena multidão” me causa um arrepio.
O que estarão fazendo todos juntos, no meio de uma praça vazia, em plena madrugada? Pelo jeito...boa coisa não é.
Melhor desviar. Seguir outro rumo, outro caminho. E a saída pela esquerda é sempre a mais útil.
Será, mesmo?
Pela esquerda, sim, até que a “pequena multidão” não mais me veja, e eu possa passar tranqüilo para o outro lado.
Cruzo com um homem de boné e mochila. Por alguma estranha razão, passamos incólumes um pelo outro, como se ambos não existíssemos, ou como se estivéssemos tão envoltos nas sombras da noite que nossa presença se torne tão pouco importante.
Atravesso a segunda praça por um caminho alternativo, sem passar pela “multidão”, e retomo o caminho como se nada tivesse acontecido.
E que calor terrível que está fazendo. Nem um vento bate...
Ou será que eu estou andando rápido demais?
Atravesso uma rua, duas. Fui pensar e falei alto, chamei a atenção de um motoqueiro que nem tinha visto.
Melhor assim, com essa pinta de louco ele fica na dele e eu na minha.
Desviando do táxi, atravesso mais uma rua. Agora o cenário é outro. Há luzes, cervejas, bares, gente conversando.
Elas estão lindas.
Como sempre.
E como falam. E de onde será que saem essas vozes tão bonitas?
Mas preciso seguir, e assim, mergulho mais uma vez nas sombras da noite. Um prédio, uma casinhola de chaveiro.
Um casal passa por mim, e novamente, nem me nota. Melhor assim.
Atravesso outra rua, duas, e agora pela direita, saindo das sombras e mergulhando novamente na luz.
Aqui também há bares, mas estes já fecharam. Há carregadores, porteiros, gente circulando, mas nem um sinal delas.
E nem uma cerveja, diga-se de passagem.
Atravesso outra rua, passo por uns sacos de lixo e levo um susto com um catador de latinhas.
Ah, é só um catador de latinhas.
Mais bares. Mais gente conversando. Mais luzes, mais cerveja. Agora há táxis, também.
Elas continuam lindas, como sempre.
E mais uma rua atravessada, e o caminho está perto do fim. E estou pensando em escrever um texto sobre esse passeio em uma madrugada qualquer, em um dia qualquer. Puxa, isso vai ficar tão legal...
Cruzo com um grupo, dessa vez eles me notam. Mas não há nada de estranho com eles, nada de “pequena multidão”.
Cruzo o sinal, mais duas ruas, e aperto o passo. Agora falta pouco, muito pouco.
Meto a mão no bolso, pego a chave.
O porteiro é mais rápido e abre a porta antes.
Saio das sombras e mergulho no silêncio do prédio.
E do silêncio do prédio para as vozes de casa, para as sombras do quarto, e por fim, para a sombra mais profunda da madrugada...
O sono.
É bem verdade que a vontade era ficar. Tomar mais uma, mais duas, mais três. Mas não posso. Não hoje.
Enquanto caminhava pela praça deserta, o vento balançou as folhas e fez com que as sombras se mexessem. Enquanto isso, na cabeça, outras sombras se movem.
“Volta. Corre lá. Ainda dá tempo”.
Não. Não hoje, digo baixinho, sob pena de dar de cara com alguém e parecer um louco falando sozinho no meio da madrugada.
Não hoje...
E atravesso a praça rápido, apertando o passo, talvez por medo de marginais, talvez por medo de não agüentar e acabar voltando para tomar mais uma.
Que é sempre a última e acaba sendo sempre a primeira...de muitas.
Agora, deixando a sombra da praça e as luzes dos prédios, é tarde demais. Não existe mais volta. Nem tampouco barulho de folhas, nem sombras se movendo, nem seguranças e porteiros à espreita.
Apenas o silêncio, o silêncio calmo, relaxante e assustador da madrugada.
Me preparo para atravessar a rua, mas lá adiante uma “pequena multidão” me causa um arrepio.
O que estarão fazendo todos juntos, no meio de uma praça vazia, em plena madrugada? Pelo jeito...boa coisa não é.
Melhor desviar. Seguir outro rumo, outro caminho. E a saída pela esquerda é sempre a mais útil.
Será, mesmo?
Pela esquerda, sim, até que a “pequena multidão” não mais me veja, e eu possa passar tranqüilo para o outro lado.
Cruzo com um homem de boné e mochila. Por alguma estranha razão, passamos incólumes um pelo outro, como se ambos não existíssemos, ou como se estivéssemos tão envoltos nas sombras da noite que nossa presença se torne tão pouco importante.
Atravesso a segunda praça por um caminho alternativo, sem passar pela “multidão”, e retomo o caminho como se nada tivesse acontecido.
E que calor terrível que está fazendo. Nem um vento bate...
Ou será que eu estou andando rápido demais?
Atravesso uma rua, duas. Fui pensar e falei alto, chamei a atenção de um motoqueiro que nem tinha visto.
Melhor assim, com essa pinta de louco ele fica na dele e eu na minha.
Desviando do táxi, atravesso mais uma rua. Agora o cenário é outro. Há luzes, cervejas, bares, gente conversando.
Elas estão lindas.
Como sempre.
E como falam. E de onde será que saem essas vozes tão bonitas?
Mas preciso seguir, e assim, mergulho mais uma vez nas sombras da noite. Um prédio, uma casinhola de chaveiro.
Um casal passa por mim, e novamente, nem me nota. Melhor assim.
Atravesso outra rua, duas, e agora pela direita, saindo das sombras e mergulhando novamente na luz.
Aqui também há bares, mas estes já fecharam. Há carregadores, porteiros, gente circulando, mas nem um sinal delas.
E nem uma cerveja, diga-se de passagem.
Atravesso outra rua, passo por uns sacos de lixo e levo um susto com um catador de latinhas.
Ah, é só um catador de latinhas.
Mais bares. Mais gente conversando. Mais luzes, mais cerveja. Agora há táxis, também.
Elas continuam lindas, como sempre.
E mais uma rua atravessada, e o caminho está perto do fim. E estou pensando em escrever um texto sobre esse passeio em uma madrugada qualquer, em um dia qualquer. Puxa, isso vai ficar tão legal...
Cruzo com um grupo, dessa vez eles me notam. Mas não há nada de estranho com eles, nada de “pequena multidão”.
Cruzo o sinal, mais duas ruas, e aperto o passo. Agora falta pouco, muito pouco.
Meto a mão no bolso, pego a chave.
O porteiro é mais rápido e abre a porta antes.
Saio das sombras e mergulho no silêncio do prédio.
E do silêncio do prédio para as vozes de casa, para as sombras do quarto, e por fim, para a sombra mais profunda da madrugada...
O sono.
Thursday, October 08, 2009
O nascimento de uma estrela
"O processo ocorre quando uma massa gasosa de poeira gira em torno de um centro gravitacional..."
Não, não é nada disso. Vamos começar de novo.
"Tudo começa com o processo de escolha. Quando se tem a pessoa, é preciso pensar de que forma ela será uma estrela famosa e..."
Não, também não é isso.
Não é esse nascimento de estrela que eu busco. Não quero a astronomia fria e crua dos complicados livros de física, nem o trabalho que torna um ser humano uma pessoa capaz de se destacar ao representar um papel, seja ele qual for.
Para mim, o nascimento de uma estrela acontece às seis da tarde.
Vamos imaginar...seis da tarde de um dia muito claro e quente, daqueles onde a praia estava cheia mesmo durante a semana, o sol brilhou o tempo inteiro e o céu estava azul brilhante, sem nenhuma nuvem, do tipo azul que cega só de olhar para cima.
Com um pouco de sorte, consigo estar na janela um pouco antes, ali pelas cinco, cinco e meia, no fim desse belo dia. O ponto do dia em que o sol já baixou, deixando para trás as casas e os morros no horizonte, mas a noite ainda não chegou. Como se a luz do sol nos desse o último gostinho de sua presença.
O céu ainda está azul, mas vai mudando para um vermelho rubro, enquanto a luminosidade baixa. Quem vê esse espetáculo, esse momento da vida em que o dia não é dia nem noite, sabe do que estou falando.
E então, aos poucos, a luz vai diminuindo, o céu começa a ficar cinza. Não sei exatamente quando ele escurece totalmente, talvez eu nunca tenha reparado nisso.
Aqui, ou ali, preciso estar muito atento, porque de onde menos espero, a noite quente vai revelar sua primeira e mais bela estrela, a de brilho mais forte e intenso, e que por mais que eu não entenda, parece piscar insistentemente na minha direção.
Pronto, nasceu. É assim que nasce uma estrela. E quase como um enxame, começam a surgir outras. Primeiro mais uma, depois mais outra, depois uma terceira, quarta, quinta, e daqui a pouco, são centenas de pontinhos de luz brilhando intensamente no céu escuro da noite.
Nada mais bonito que o nascimento de uma estrela.
Ah, antes que eu me esqueça: é claro que elas também nascem em dias frios, em dias cor-de-chumbo, em dias chuvosos, em dias nublados.
Mas não tem a mesma graça, nem a mesma poesia.
Não, não é nada disso. Vamos começar de novo.
"Tudo começa com o processo de escolha. Quando se tem a pessoa, é preciso pensar de que forma ela será uma estrela famosa e..."
Não, também não é isso.
Não é esse nascimento de estrela que eu busco. Não quero a astronomia fria e crua dos complicados livros de física, nem o trabalho que torna um ser humano uma pessoa capaz de se destacar ao representar um papel, seja ele qual for.
Para mim, o nascimento de uma estrela acontece às seis da tarde.
Vamos imaginar...seis da tarde de um dia muito claro e quente, daqueles onde a praia estava cheia mesmo durante a semana, o sol brilhou o tempo inteiro e o céu estava azul brilhante, sem nenhuma nuvem, do tipo azul que cega só de olhar para cima.
Com um pouco de sorte, consigo estar na janela um pouco antes, ali pelas cinco, cinco e meia, no fim desse belo dia. O ponto do dia em que o sol já baixou, deixando para trás as casas e os morros no horizonte, mas a noite ainda não chegou. Como se a luz do sol nos desse o último gostinho de sua presença.
O céu ainda está azul, mas vai mudando para um vermelho rubro, enquanto a luminosidade baixa. Quem vê esse espetáculo, esse momento da vida em que o dia não é dia nem noite, sabe do que estou falando.
E então, aos poucos, a luz vai diminuindo, o céu começa a ficar cinza. Não sei exatamente quando ele escurece totalmente, talvez eu nunca tenha reparado nisso.
Aqui, ou ali, preciso estar muito atento, porque de onde menos espero, a noite quente vai revelar sua primeira e mais bela estrela, a de brilho mais forte e intenso, e que por mais que eu não entenda, parece piscar insistentemente na minha direção.
Pronto, nasceu. É assim que nasce uma estrela. E quase como um enxame, começam a surgir outras. Primeiro mais uma, depois mais outra, depois uma terceira, quarta, quinta, e daqui a pouco, são centenas de pontinhos de luz brilhando intensamente no céu escuro da noite.
Nada mais bonito que o nascimento de uma estrela.
Ah, antes que eu me esqueça: é claro que elas também nascem em dias frios, em dias cor-de-chumbo, em dias chuvosos, em dias nublados.
Mas não tem a mesma graça, nem a mesma poesia.
Sunday, September 13, 2009
Por enquanto...é mais um domingo
Mudaram as estações / Nada mudou / Mas eu sei que alguma coisa aconteceu / Tá tudo assim tão diferente / Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar / Que tudo era pra sempre, sem saber, que o pra sempre / Sempre acaba...
Por Enquanto, Renato Russo
A música veio, assim, sem pedir licença. Não está no meu MP3, nem no meu top cinco, nem no top dez, e muito menos eu a ouvi recentemente.
Veio assim, naturalmente, como uma mensagem qualquer, como uma resposta para as dúvidas, como um conforto a uma simples pergunta.
"Alguma coisa mudou de lá pra cá?".
Não sei. Mas lembro que os primeiros raios de sol daquela manhã de domingo banhavam os velhos prédios da Lapa enquanto o ônibus seguia, em alta velocidade, rumo à Praia do Flamengo. E enquanto as lágrimas teimavam em rolar pelo meu rosto.
Mas que droga, pensava eu. É ridículo. Não deveria deixar ninguém ver. Um homem desse tamanho chorando às seis da manhã de um domingo, depois de uma noite inteira se distraindo, rindo, bebendo, ouvindo histórias, falando bobagens.
Não há nada que justifique isso. Nada mesmo. Esse choro parece de outra pessoa, de outro ser, não parece meu. Não sou assim. Ou será que eu sou? Ou será que há algo que justifica tudo isso e não quero admitir?
Mas, quem disse que adiantava? O sol continuava subindo, o ônibus continuava seguindo, e eu continuava mal. Às vezes triste, às vezes chorando. Às vezes tentando lembrar...do que mesmo?
"Se a coisa ficar preta, faz uma piada que melhora."
Quem foi o idiota que inventou isso? Como se fosse simples assim, a gente faz uma piada, ri e daqui a pouco essa tristeza passa. Bem, na verdade é meio assim. Mas é difícil quando a gente teima em guardar as coisas para si, também. Não dá pra rir com tudo isso guardado. Melhor botar tudo para fora.
No bom sentido, é claro. Mas seria o ônibus na Lapa às seis da manhã de domingo o melhor lugar pra isso? Estaria o álcool me afetando de alguma forma? Ou...alguém estaria me afetando de alguma forma?
A memória dá saltos, pulos. Me lembro de gente se despedindo de mim em Copacabana, como se o ônibus não tivesse passado pelo Rio-Sul, por Botafogo. Tomara que eles não tenham reparado em nada, eu não teria cara para encará-los de novo. Ou não.
Me lembro do Corte do Cantagalo, e do sol já alto. Sempre adorei voltar para casa esse horário, hoje parece chato. Talvez porque falte alguém pra conversar. Ou talvez porque tenha gente demais no ônibus e eu não possa falar alto e dizer tudo o que penso, sob pena de ser tachado de louco.
Não que seja normal, mas louco também já é demais.
Me lembro da chegada ao Leblon, tão bonito sob o sol das seis da manhã, com seus pássaros cantando, suas ruas simpáticas, gente saindo para fazer exercício. Pô...tem que gostar muito pra fazer exercício essa hora. Ou então ir direto da noite. Tem maluco pra tudo.
Não, não fui fazer exercício, fui para casa. No caminho, xingava, chutava pedras, reclamava. E o Leblon tão bonito. E um dia lindo que nascia. E eu dizendo que passaria o dia emburrado. Como se estivesse de luto por alguma coisa. E cadê o espírito pra fazer uma piada pra melhorar o astral?
Tem a piada do disque-luto (liga pra lá e ouve um minuto de silêncio), mas era tão ruim que não consegui contar pra mim mesmo. E ela é tão ridícula e tosca que é engraçada, mas nem assim consegui rir.
E cheguei em casa dizendo que não tinha sido uma noite boa. Por que mesmo, hein? Nem lembro mais. A memória pula de novo, lembro que fiz um belo sanduíche e comi. Passava Chaves na TV, fiz questão de assistir. E no próximo "salto" já ouço a voz de alguém me acordando.
E um banho pra recobrar as forças, colocar as ideias em ordem, me refazer.
Foi quando a música veio, assim, de memória, sem pedir licença. Não está no meu MP3, nem no meu top cinco, nem no top dez, e muito menos eu a ouvi recentemente.
Veio assim, naturalmente, como uma mensagem qualquer, como uma resposta para as dúvidas, como um conforto a uma simples pergunta.
"Alguma coisa mudou de lá para cá?"
Por Enquanto, Renato Russo
A música veio, assim, sem pedir licença. Não está no meu MP3, nem no meu top cinco, nem no top dez, e muito menos eu a ouvi recentemente.
Veio assim, naturalmente, como uma mensagem qualquer, como uma resposta para as dúvidas, como um conforto a uma simples pergunta.
"Alguma coisa mudou de lá pra cá?".
Não sei. Mas lembro que os primeiros raios de sol daquela manhã de domingo banhavam os velhos prédios da Lapa enquanto o ônibus seguia, em alta velocidade, rumo à Praia do Flamengo. E enquanto as lágrimas teimavam em rolar pelo meu rosto.
Mas que droga, pensava eu. É ridículo. Não deveria deixar ninguém ver. Um homem desse tamanho chorando às seis da manhã de um domingo, depois de uma noite inteira se distraindo, rindo, bebendo, ouvindo histórias, falando bobagens.
Não há nada que justifique isso. Nada mesmo. Esse choro parece de outra pessoa, de outro ser, não parece meu. Não sou assim. Ou será que eu sou? Ou será que há algo que justifica tudo isso e não quero admitir?
Mas, quem disse que adiantava? O sol continuava subindo, o ônibus continuava seguindo, e eu continuava mal. Às vezes triste, às vezes chorando. Às vezes tentando lembrar...do que mesmo?
"Se a coisa ficar preta, faz uma piada que melhora."
Quem foi o idiota que inventou isso? Como se fosse simples assim, a gente faz uma piada, ri e daqui a pouco essa tristeza passa. Bem, na verdade é meio assim. Mas é difícil quando a gente teima em guardar as coisas para si, também. Não dá pra rir com tudo isso guardado. Melhor botar tudo para fora.
No bom sentido, é claro. Mas seria o ônibus na Lapa às seis da manhã de domingo o melhor lugar pra isso? Estaria o álcool me afetando de alguma forma? Ou...alguém estaria me afetando de alguma forma?
A memória dá saltos, pulos. Me lembro de gente se despedindo de mim em Copacabana, como se o ônibus não tivesse passado pelo Rio-Sul, por Botafogo. Tomara que eles não tenham reparado em nada, eu não teria cara para encará-los de novo. Ou não.
Me lembro do Corte do Cantagalo, e do sol já alto. Sempre adorei voltar para casa esse horário, hoje parece chato. Talvez porque falte alguém pra conversar. Ou talvez porque tenha gente demais no ônibus e eu não possa falar alto e dizer tudo o que penso, sob pena de ser tachado de louco.
Não que seja normal, mas louco também já é demais.
Me lembro da chegada ao Leblon, tão bonito sob o sol das seis da manhã, com seus pássaros cantando, suas ruas simpáticas, gente saindo para fazer exercício. Pô...tem que gostar muito pra fazer exercício essa hora. Ou então ir direto da noite. Tem maluco pra tudo.
Não, não fui fazer exercício, fui para casa. No caminho, xingava, chutava pedras, reclamava. E o Leblon tão bonito. E um dia lindo que nascia. E eu dizendo que passaria o dia emburrado. Como se estivesse de luto por alguma coisa. E cadê o espírito pra fazer uma piada pra melhorar o astral?
Tem a piada do disque-luto (liga pra lá e ouve um minuto de silêncio), mas era tão ruim que não consegui contar pra mim mesmo. E ela é tão ridícula e tosca que é engraçada, mas nem assim consegui rir.
E cheguei em casa dizendo que não tinha sido uma noite boa. Por que mesmo, hein? Nem lembro mais. A memória pula de novo, lembro que fiz um belo sanduíche e comi. Passava Chaves na TV, fiz questão de assistir. E no próximo "salto" já ouço a voz de alguém me acordando.
E um banho pra recobrar as forças, colocar as ideias em ordem, me refazer.
Foi quando a música veio, assim, de memória, sem pedir licença. Não está no meu MP3, nem no meu top cinco, nem no top dez, e muito menos eu a ouvi recentemente.
Veio assim, naturalmente, como uma mensagem qualquer, como uma resposta para as dúvidas, como um conforto a uma simples pergunta.
"Alguma coisa mudou de lá para cá?"
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