Tuesday, June 30, 2009
O sonhador e "o não"
Suspirou, limpou as lágrimas do rosto, fungou e meteu a chave na fechadura. Não, não o veriam chorando. Não podiam, simplesmente era algo constrangedor, exagerado, forte demais.
O choro escondia a decepção, a frustração e a desilusão, após uma certeza que o inundara com uma força tremenda durante tantas semanas.
Mas, mais do que isso, lhe perguntariam o porquê. Iam querer saber detalhes, dar conselhos, fazer comentários.
Comentários...isso era tudo o que ele não precisava naquele momento. Sua única vontade era pensar, ficar sozinho, raciocinar. Ele próprio não estava entendendo o motivo de tamanho choro. Afinal...ela dissera apenas "não". Simples assim...
Precisava pensar. Mas, antes de pensar, precisava abrir a porta, entrar em casa. Não podia ficar parado no corredor tentando controlar o choro.
Entrou. A velocidade dos passos estava acima do normal, é verdade, mas depois ele contaria que disfarçou bem. Mas era difícil continuar disfarçando em uma casa com quatro pessoas, então a saída era o chuveiro.
A reflexão não ajudou. Não conseguia pensar direito, o barulho da água caindo o distraía. Deixou as lágrimas rolarem. "Por quê?", se perguntava. "Mais uma vez...por quê? O que de mais está errado?".
Não achou a resposta, e depois achou que não havia nenhuma. Mas decidira conversar com alguém, dividir as angústias, os problemas, já que sozinho não era possível.
E decidiu conversar...
***
A chuva já havia passado, agora restava apenas a rua molhada. No corpo, levava sua velha capa de chuva (que a mãe ironizava, dizendo que estava grande e que parecia "do irmão mais velho") e, nas mãos, carregava um guarda-chuva automático, fechado.
No rosto, a expressão era dura, irritada, furiosa. A mesma que quase fora de choro há pouco mais de dez minutos. "Por quê?", dizia de si para si, enquanto descia a Rua Lopes Quintas. "Por que me mandou ir até lá? Não podia me dizer tudo pelo telefone? Me fez subir para dizer que eu deveria descer e ficar por aqui? Quem pensa que é, para me tratar desse jeito? E ainda me deu este telefone aqui. Vou jogar esta porra no lixo, não quero nem saber. Vá à merda, esteja onde estiver".
Irritado, ele chutava pedrinhas, andava com o passo duro, embrutecido. A raiva escondia a decepção, a frustração após uma certeza que o inundara com uma força tremenda durante as últimas semanas.
Não sabia quando a raiva passaria, mas não desistiu. Ainda irritado, lembrou que a esperança se renovaria no dia seguinte. "Desta vez...vou colocar as cartas na mesa."
***
Olhou no "horizonte" da rua, viu o ônibus e fez sinal. O coletivo parou, ele entrou. Vestia camisa social, calça jeans, sapato. Depois de passar o cartão na roleta, se sentou, tirou o MP3 do bolso, ligou e começou a ouvir.
Uma da tarde. Estava adiantado...melhor assim, pensou.
Distraído, ouvia música enquanto pensava no dia de trabalho que teria pela frente.
Foi então que surgiu a idéia. Veio rápida como um raio, atravessando a mente sem pedir licença - aliás, isso andava acontecendo bastante ultimamente.
Começou a se lembrar de quanta coisa conquistara nos últimos tempos. A começar pela música que ouvia. Listando mentalmente, percebeu quantas coisas boas haviam acontecido.
E se lembrou de que isso começara em algum ponto. Sim...como pudera esquecer?
No dia em que ela disse "não".
"Ah, se eu pudesse dizer isso a ela. Não...não lhe daria esse gostinho. Que bom que é melhor do jeito que é."
Sorriu e aumentou o volume da música enquanto o ônibus entrava no Túnel Rebouças.
Thursday, June 25, 2009
Fevereiro
Às vezes acho que já li isso em algum lugar. Teria sido em um poema de Drummond ou num texto de Paulo Mendes Campos? Ou em uma música de Vinícius, Tom e/ou Elis Regina?
Não sei, não importa. Mas sei que fevereiro é a cara do Rio.
Tem mês mais carioca que fevereiro? Ah, não tenho dúvida que não.
Fevereiro é mês quente, mês de calor, auge do verão. Não tem pra dezembro nem janeiro, muito menos março.
Mas é um verão, assim, que é bem verão mesmo. Os dias de fevereiro parecem mais quentes que os outros. Antes dele, o verão parece que ainda está começando, e quando fevereiro acaba, o verão vai indo embora...como diria a Elis, são as tais “águas de março" fechando o verão. Nada mais sábio.
Pensar em fevereiro me lembra praia, mas aquela praia com solzão, sol à pino mesmo, de nove da manhã às seis da tarde, com um calor de rachar e onde não bate um ventinho sequer, com meninas de biquíni estiradas na areia, de bunda para cima, pessoas jogando vôlei e futebol, crianças comendo queijo coalho e sanduíche natural, surfistas esbarrando em mulheres histéricas. E nada de bater um vento pra aliviar.
Fevereiro não tem o ar chuvoso de dezembro e janeiro e nem os dias um pouco menos quentes de março. Não tem dias nublados “clássicos”, daqueles em que o sol não dá as caras; no máximo tem um dia “meio-lá-meio cá”.
Fevereiro também é um mês engraçado porque faz sempre calor. Pode chover, cair um verdadeiro temporal, que a gente continua sentindo calor.
Fevereiro também me lembra os dias cariocas mais quentes, às vezes quase insuportáveis, em que é preciso tomar banho cinco vezes para não ter a sensação de que se está derretendo.
E como falar de Fevereiro sem falar das meninas com pouca roupa, que tiram a atenção, fazem a gente quase bater no poste ao virar para olhar para trás...vão andando devagar, naquele jeito que só elas sabem, dominando, escravizando nosso pobre (ou seria rico?) olhar...ah, às vezes o calor é tão generoso, não é mesmo?
E por mais que elas andem assim em todo o verão (e algumas vezes, o ano todo), parece que em fevereiro fica mais fácil reparar. Sabe aquela história “tá um calor aqui...”? Pois é...
E como falar desse mês sem lembrar que parece um mês de volta de férias, mesmo que não seja? É o tempo em que nos damos conta que o ano está começando de fato, que janeiro já ficou para trás, e que vem aquele engraçadinho dizer “ih, o ano tá voando!”.
Quando lembro de fevereiro, também lembro do anoitecer do centro do Rio, da Avenida Rio Branco, ali perto do edifício Avenida Central, aquela noite que cai devagar, aos poucos, com o sol descendo e as pessoas apressadas voltando para casa. É só um dia normal, mas em fevereiro...parece especial, não sei.
Claro que fevereiro é especial também por juntar algumas das maiores paixões cariocas: futebol, praia e carnaval. É a época em que o Campeonato Estadual de futebol floresce, época dos blocos de rua (já foi dos bailes...) que estão se estendendo e começando a tomar o mês todo, é a época do Carnaval...
Carnaval que é mais que aquele desfile na Sapucaí ou aqueles quatro dias de folia, é um estado de espírito, é um momento, um pedaço da vida, que vai sendo colado aos poucos com os outros que vão sendo vividos a cada ano. Para depois dizer: “Ah, tenho ótimas lembranças do Carnaval”, como se tivesse sido um só tempo, uma só época...
E nem me venham falar em Carnaval em março, porque como já disse, é estado de espírito, e isso não tem data.
Aliás, tem: fevereiro. Que, por sinal, é muito mais que um mês.
É um estado de espírito.
Junto com o Carnaval e a Praia, o mais carioca de todos os estados de espírito.
Thursday, April 09, 2009
Qual é o crime?
Que bobagem, pensei. Isso jamais aconteceria.
Chegando em casa, minha mãe fazia imposto de renda, e discutia com a minha tia formas de burlar o fisco. "Então não declaro isso tudo...o que você acha? Será que me pegam na malha fina?".
Depois que minha tia se afastou, comentei numa boa: "Mãe, não faz isso, você sabe que é errado". Para que... "Ah, você não entende, você não sabe de nada, não sabe o que é ter despesa, e pagar dinheiro ao governo para eles nos roubarem".
Ao sair do quarto, ouvi ela dizendo à minha tia para comprar um bolinho e levar à enfermeira da vovó no hospital. "Tá vendo, mãe? Depois você fala dos políticos. Tá fazendo igualzinho. Isso é corrupção, é suborno. Vovó tem que ser bem tratada naturalmente". "O que é, filho? Virou bastião da honra e defensor da moral? Não é corrupção, é só um agrado, não tem nada de mais".
Fui trabalhar, e na volta, peguei carona com meu chefe. Cansou de ultrapassar pela direita e não dar passagem a ninguém. E ainda se irritou quando eu quis guardar um papel de bala no bolso. "Joga fora pela janela, porra. Depois o gari limpa". Não adiantou argumentar, ele estava irredutível e me forçou a atirar o papel fora.
No caminho, ele foi parado por um guarda. Estava com o documento vencido, e o policial exigiu uma "cerveja" para liberar o carro. "Tem algum aí? Depois eu te dou", ele me disse.
"Não vou dar dinheiro para subornar guarda, porra. Você está errado, tem que pagar, apenas isso."
Para que...me olhou de cara feia o resto do caminho. Ele e o guarda, que acabou aceitando liberar o carro sem cerveja nem nada.
No dia seguinte, fui fazer uma matéria, e na volta, conversava sobre desonestidade com o motorista do jornal. "Pois é, esses deputados, senadores, vereadores...tudo envolvido em esquema, tudo safado, ninguém presta", dizia ele.
"Pois é. E o pior é que a maioria das pessoas reclama muito, mas se estivesse lá, fazia igual".
Ele ficou calado, e depois de alguns instantes, mandou na lata... "É...se eu estivesse lá...eu também faria esquema, ué. Ia arrumar o meu. Todo mundo faz, porque eu não vou fazer?".
Dizer o que? Fiquei calado. O exemplo estava mais do que dado.
O professor estava certíssimo...exceto por um detalhe.
Não é preciso uma lei para criminalizar a honestidade no país.
Ela já virou delito hediondo há tempos.
Friday, February 20, 2009
Sonho ou Utopia, Absoluto ou Relativo?
Sonhei que estava acordando para ir trabalhar, e que era um belo dia de sol. Depois de tomar café, eu pegava um jornal e começava a ler.
Lia que a taxa de homicídios no Rio havia caído pela metade em um ano, com dados de um instituto sério e independente, sem ligação com as autoridades. E o de roubos estava em queda há dois anos.
Na parte política, a principal notícia era sobre corrupção. Políticos andavam com medo de suas tramóias serem descobertas, e evitavam a imprensa, pois vários colegas já haviam ido para a cadeia, e outros, perdido todos os seus bens, com uma série de sanções à própria vida, obrigados a depender do serviço público, depois de comprovadas as acusações.
E que o governo anunciava novo recorde de empregos, reiterando a necessidade de trazer estrangeiros, o que já gerava reclamações por parte da população.
Na seção de Esportes, havia notícias dizendo que o Flamengo estava conseguindo pagar suas dívidas, que Fluminense e Vasco não brigavam mais, que o Botafogo não se remoía mais por suas derrotas, que os quatro grandes do futebol Carioca brigavam pelo título nacional. E que os outros esportes estavam crescendo. Éramos campeões mundiais de vôlei, basquete, handebol, natação, ginástica, vela, iatismo, entre outros, e apontados como a maior potência olímpica da história, graças a um belíssimo projeto social esportivo.
Depois de tomar café, eu ia para a praia. O mar era de um azul-brilhante sem fim, sem poluição. E tampouco havia cachorros na areia. Em vez deles, tínhamos turistas, de todas as partes do mundo, admirando a beleza e a tranquilidade do verão carioca, a amabilidade do povo, o jeito caloroso com que os cariocas recebem e tratam as pessoas.
Depois de dar uma volta por aí, respirando o ar mais puro da tranquilidade - não absoluta, mas relativa - voltava para casa para almoçar, e ia trabalhar.
Em vez de ônibus sujos, quentes e fedidos, com gente quase caindo do lado de fora a cada freada, eu ia de metrô. Um metrô como é hoje, sério e organizado, mas com mais de dez linhas, ligando cada canto da cidade. Sem falar em barcas, trem suspenso, ônibus em corredores exclusivos. Mas, como nada era perfeito, tinha muita gente reclamando dos altos preços das passagens.
E descendo da estação em direção ao trabalho, podia andar com calma. Atento, sempre - nunca se sabe o que se encontra na rua - mas tranquilo. Enquanto isso, um grupo de policiais levava para a delegacia um menor que tentara roubar a carteira de uma senhora.
Uma paz, uma paz não absoluta, mas relativa, que me permitia pensar apenas nos problemas do trabalho, no que ia fazer à noite, em como gastar o dinheiro que sobrava no fim do mês.
Mas, como nada era perfeito...
Acordei e percebi que era apenas um sonho. Não um sonho absoluto...mas...relativo. Será que não era melhor ter continuado dormindo?
Monday, December 22, 2008
O tempo endoidou
Concordo, até, mas acho que não são só os fenômenos da natureza que andam loucos, nosso tempo cronológico-psicológico também endoidou. Se não, vejamos...ando por aí e nem parece que é dia 22 de dezembro. Nem parece que o Ano-Novo vem aí, não ouço ninguém falar nisso. E por outro lado, já vejo bandas e blocos de Carnaval caindo na folia, em pleno dia 18 de dezembro!
Nas ruas, poucas casas estão enfeitadas. Por toda parte, parece haver menos árvores de natal, menos animação, menos pessoas felizes. Onde estão as lampadinhas de pisca-pisca que simbolizam essa época? E as estrelas, e os gorros de Papai Noel? Será que o espírito de Natal desapareceu, como muitos profetizavam que aconteceria?
Também não vejo ninguém fazendo planos, resoluções de Ano-Novo, comentando o que esperam para os tempos vindouros. As únicas coisas que tenho ouvido são "este tempo está doido", "como o tempo está passando rápido", "nossa, esse ano voou".
Voou mesmo. Minha mãe tem a teoria de que o tempo anda passando tão rápido que perdemos a noção do mesmo. Assim, o Natal entra pelo Ano-Novo, que entra pelo Carnaval, e Páscoa, e Dia da Criança, e daqui a pouco tudo vai passar tão rápido que teremos uma data comemorativa a cada dois dias.
Não duvido, não duvido. Hoje mesmo me dei conta "putz, já é 22 de dezembro, daqui a dois dias é Natal". Nem parece que passou assim, tão rápido. Me lembro de estar, "ontem", na praia de Copacabana, brindando a chegada de 2008.
Levei sete minutos pra escrever esse texto...putz, como passou rápido!
Thursday, December 18, 2008
Era só um aperto de mão...
'POC' para mim é o melhor som que descreve esse encontro das mãos no ar. É engraçado porque geralmente é usado em tom de informalidade, entre amigos mesmo. Pessoas conhecidas mas nem tanto, ou que ainda estão se conhecendo, ou que simplesmente se cumprimentam, geralmente apenas apertam as mãos sem barulho.
Nunca tinha reparado como é bonito esse aperto de mão 'barulhento', nem quanta coisa ele representa. Uma amizade verdadeira, um encontro de duas pessoas que se gostam, de amigos que não se vêem há tempos. Cumplicidade, amizade, sinceridade, enfim, todos esses sentimentos de que tanto precisamos.
Um gesto bonito, precedido por todo um movimento, erguer a mão no ar, levá-la para a frente com força, até encontrar a outra. Há todo um ritual, toda uma preparação. E o mais bonito é que é quase automático, quase simples...ninguém pensa antes de dar um aperto de mão assim, é espontâneo, natural, leve, desobrigado, sem pressa.
Em meio à tanta poluição sonora, de buzinas, carros, ônibus, ronco de motos, conversas em voz alta, músicas que se misturam, barulhos de rádio e TV, de sapatos tocando o chão, de coisas caindo, o som das mãos se encontrando no ar parece tão puro e simples quanto o ar sem poluição.
A busca
Palavras ao Vento - Marisa Monte
Não sei onde está. Então, um reflexo. Desço as escadas correndo, saindo de casa. De repente pareceu que o enxerguei no prédio ao lado. Estava lá...
Não, não estava, foi só impressão. Foi só um reflexo mesmo. Chateado, decido não voltar para casa. Vou andar um pouco mais por aí, quem sabe não o encontro.
Como diz a letra daquela música, paro em cada esquina, em cada olhar. Mas só vejo impressões, reflexos, idéias. Ele não estava ali, em nenhum lugar. Nos olhos de ninguém - nem daquela menina bonita, nem daquele senhor, nem nos daquela velhinha, nem nos daquele cara engravatado, nem daquela mulher que está indo trabalhar. Não, definitivamente, não achei.
Continuo a busca, andando por aí, ermo, sem rumo nem tempo. Por quanto terei procurado? Não sei, não importa mais. Agora a busca me absorve, me intima, me envolve, me faz correr atrás apenas disso.
As ruas do Leblon parecem pequenas demais. Ipanema é longe demais, talvez ele não esteja por lá. Irei para lá depois. Agora vou procurar aqui...aqui é o lugar dele, nesse bairro, foi aqui que ele cresceu, foi aqui que viveu, se construiu. Tem de estar por aqui, em algum lugar.
Me pergunto como será ele. Sério? Engraçado? Cômico? Bobo? Inteligente? Sereno? Chato? Teimoso? Perfeccionista? Insistente? Esquisito? As dúvidas agora me consomem, e tornam a busca mais frenética, mais intensa, mais difícil, e ao mesmo tempo, mais envolvente.
Da praia ao Clube do Flamengo, da subida da Niemeyer ao Jardim de Alah, da Padaria 686 ao Mc Donald´s da Praça Cazuza, do shopping à Praça Antero de Quental...não há um canto que fique sem vasculhar, não há nada que não seja procurado, nenhum local escapa à vigia atenta e séria, ao olhar de desejo, de busca, de procura, de encontro.
E no fim, volto para casa entre o ar triste e o ar desolado, cabeça baixa, mãos nos bolsos da calça jeans. Às vezes acho que busco a procura, e não a solução. Mas, que importa...no fim, continuo procurando.
Onde estou eu? E afinal, quem sou eu?
Saturday, November 22, 2008
Noite de goleada
Estou, mais precisamente, em um carro, no meio do bairro de São Cristóvão, indo em direção ao Maracanã. Hoje é dia de futebol. Para mim, é mais do que um jogo, é O jogo. Porque, de um jeito ou de outro, será meu primeiro jogo como profissional, como repórter esportivo, cronista, jornalista, enfim, seja lá o que for.
A tensão e a ansiedade tentam me consumir, enquanto tento me controlar. É apenas mais uma partida de futebol. Apenas mais um jogo do Flamengo contra o Coritiba. Por outro lado, estou um pouco nervoso. Como será esse negócio de cobrir futebol do estádio? Será que conseguirei não torcer, me mantendo imparcial, como diz a regra? E se o time jogar mal pra caramba, terei o direito de xingar cada um dos jogadores e mandá-los para vários locais pouco agradáveis?
Para disfarçar a tensão, converso com um colega que também vai cobrir o jogo. Deve ser a milésima oitava vez que ele vai. É claro que não vou comentar nada sobre o meu nervosismo, não quero parecer bobo. E tampouco quero admitir que estou me roendo por dentro. Melhor falar sobre o time, sobre os jogadores, saber um pouco como andam as coisas nos bastidores.
Ao chegar no estádio, uma rápida negociação até que encontram minha autorização para entrar. Sabem como é, não tenho a carteirinha da associação dos cronistas, então precisei ligar antes e pedir permissão. Mas nada que atrapalhe. Aliás, onde está o colega? Ele disse algo sobre ir para a arquibancada comum...e assim, é sozinho mesmo que eu subo em direção à tribuna da imprensa.
Tudo é novidade por aqui. Legal, isso, a imprensa tem um bar só para ela e um banheiro também exclusivo. Posso ficar na tribuna da imprensa ou na cabine. Melhor na tribuna. Mal saio, ouço a torcida gritando, festejando, comemorando. Que vontade de gritar junto...mas não, melhor não, sou jornalista aqui, não torcedor.
Começa o jogo, bola rolando no Maracanã. A visão da tribuna não é das melhores, a cabine de rádio/TV quase invade a visão do campo...mas dá pra ver numa boa. O jogo começa equilibrado, com os dois times tocando bem a bola, e sem ninguém ter uma chance muito clara de gol.
E lá vai o Flamengo...lá vai Obina...entrou na área...opa...foi derrubado, é PÊNALTI! E o juiz marca!!!! Comemoração discreta, claro. Afinal, quem é o jornalista aqui? E enquanto isso, a torcida faz a festa.
Lá vai Léo Moura, bateu...ahhhhhhhh, o goleiro defendeu...mas Léo Moura pegou o rebote...é gol. É GOL! Com comemoração discreta, é claro, bem imparcial. A torcida do Fla faz a festa e canta o "parabéns pra você", aproveitando que o Léo está fazendo aniversário hoje. E um a zero pro Mengão!!!
Segue o jogo...agora parece que o Coritiba vai reagir, afinal está perdendo, precisa vencer para continuar sonhando com uma vaga na Copa Sul-Americana, se perder complica...mas quem tá atacando é o Mengão...lá vai Kléberson, recebeu pela direita, arrancou, cruzou...Obina bateu de primeira...tá lá, no fundo da rede...GOL, DOIS A ZERO PRO MENGÃO! E mais uma comemoração discreta, lógico.
Hora do intervalo. Melhor, impossível. Desço para beber um chá gelado, ir ao banheiro, conhecer as cabines de rádio/TV, respirar um pouco. E depois volto para a tribuna de imprensa. Olhando esse estádio, esse campo e essa torcida, fico me lembrando dos tempos de colégio. Sempre gostei de futebol, mas era gordinho e não conseguia ir atrás da bola. Aí, comecei a ficar de fora, assistindo os jogos, muitas vezes imitando o Galvão Bueno (não tinha outro melhor).
Será que veio daí essa coisa de querer ser jornalista esportivo? Talvez. Diziam, na época, que eu não entendia nada de futebol, não sabia nem escalar meu time - o que era uma crítica injusta, diga-se de passagem. Mas, hoje, sei escalar não só meu time, como os quatro grandes do Rio (e se bobear, vários outros do Brasil). Vejo os jogadores de perto, falo com eles e ouço histórias dos bastidores, posto pitacos em blogs criticando esquema tático, formação, escalação, enfim, tudo.
Entro como jornalista no Maracanã e assisto aos jogos que quiser. Fico pensando...o que será que diriam aqueles bobalhões, se pudessem me ver aqui, agora, crachá de jornalista no peito, assistindo ao jogo? Quem é que está por dentro agora, hein?
Me lembro do meu pai, que sempre me apoiou, ligo para ele...e conversamos sobre essa partida. "Agora só falta o Fla meter mais uns 3 para ficar perfeito, pai", digo a ele.
Começa o segundo tempo. O Coritiba pressiona, o Fla se segura bem, com a zaga funcionando perfeitamente. Obina faz fila mas perde o gol. E agora lá vai Ibson...toca para Fierro...toca para Ibson de novo...lá vai ele...chutou....É GOOOOOOOOOOOL!!!!! E eu comemoro mais animado, agora, cantando junto com a torcida. TRÊS A ZERO MENGÃO!!!!
Perfeito, melhor do que isso, impossível...ver uma goleada na minha estréia profissional no Maraca. O Fla faz uma belíssima partida. E lá vai o Mengão de novo...Fernando recebe...arranca...tocou pra Maxi...e É GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL...DO FLAMENGO!!!!! FOI FOI FOI FOI ELE...MAAAAAAAAAAAAAAAAAAAXI!!!!
Quem falou em comemoração imparcial? Bobagem, isso, isso não existe. Quatro a zero Mengão...lindo, lindo, lindo de se ver. E já canto com a torcida, bato palmas, comemoro, festejo. Belíssimo espetáculo.
Vai terminar, 48 minutos do segundo tempo...lá vai Obina de novo...opa, foi derrubado...É PÊNALTI! E o juiz marca!!! A galera pede pelo goleiro Bruno, grita, diz que ele que tem que bater o pênalti. E claro, eu grito junto. Os jogadores chamam...e lá vai Bruno!!!! Partiu, deu uma paradinha, bateu...
É GOOLLLLLLLLL!!!!!! CINCO A ZERO MENGÃO!!!
Belíssimo jogo, uma das melhores apresentações no campeonato, simplesmente impecável. A essas alturas, já comemoro muito, efusivamente - até já recolheram meu crachá de jornalista. Alguém falou em não torcer?
Ah, que noite. Para não esquecer nunca mais!!!
Janela em Movimento
Um sujeito careca ouvindo walkman em uma esquina. Um radar. O símbolo de uma empresa de telefonia. Um canteiro cheio de árvores, vazio. Dois caras estranhos conversando no canteiro. A Baía de Guanabara. Um letreiro de marca de refrigerante e outro de telefonia. Um monte de táxis parados em frente a um prédio. Um túnel.
Outro túnel. Uma loja de carros. Uma estátua. Uma lanchonete. Um botequim. Uma placa com uma seta "siga ou vire à direita". Uma banca de jornal. Uma loja de empanadas. Pessoas andando na rua. Outra curva. Um posto de gasolina. Seguranças conversando apoiados em uma cancela. Um colégio. Um cartaz dentro do colégio. Um orelhão. Um sujeito quase escondido em uma esquina.
Pessoas reunidas em uma esquina. Um letreiro azul e verde de uma loja de tintas. Um cartaz escrito 'Os estranhos' em um ponto de ônibus. Um relógio digital que marca 22h02. Uma senhora em um ponto de ônibus. Outro túnel.
Um caminhão de lixo. Uma padaria. Um sujeito passeando com um cachorro. Uma cancela vazia. Um clube. Uma praça. Uma curva. Outro cartaz escrito 'Os estranhos' em um ponto de ônibus. Uma mancha na parede. Uma curva. Uma árvore enrolada em lampadinhas natalinas. Uma luz verde lá longe. Um monte de tralhas apoiadas em uma árvore. Uma arquibancada.
Um casal passeando. Uma Lagoa. Lâmpadas de mercúrio. Um ponto de ônibus. Uma lata de lixo. O vão da grama entre o ponto do ônibus e a lata do lixo. Um sujeito fazendo exercício. Um homem fotografando alguma coisa. Luzes lá longe. Um clube. Um barco. A lanterna do ônibus da frente. Uma lata de lixo lá longe. Um cartaz escrito "10% de desconto". Uma esquina. Uma placa. Um carro. O letreiro de um prédio. Um posto de gasolina.
O ponto final.
Friday, October 31, 2008
O conto do prédio
Era uma bonita tarde de sol de uma quinta-feira qualquer, dessas que a gente nem se dá conta que existiram algum dia. Deviam ser umas seis e pouco. Com o horário de verão, nem dava para notar que já era noite.
Após terminar de fumar, o rapaz jogou o cigarro fora e entrou na lanchonete. Estava quase vazia: um homem tomava um suco, em pé, e outro comia um sanduíche, sentado no balcão. O jovem se aproximou do balcão e pediu:
- Me dá um suco, por favor?
- Claro...aquele velho suco de manga, hã?
- Não, acho que hoje vou variar um pouco. Me dá um de maracujá.
O balconista - já um senhor, com chumaços de cabelo apenas nas laterais da cabeça, boina azul-clara enfiada na careca e uniforme azul-claro - olhou o rapaz desconfiado.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- SAI UM MARACUJÁ NO CAPRICHO!!! - berrou o balconista para o interior da lanchonete.
O rapaz era um velho freguês, que todo dia passava por ali. Entrava assim, sempre depois de fumar, e pedia um suco, sempre de manga. Depois, bebia olhando para um centro empresarial em frente à lanchonete, como se estivesse esperando alguém ou querendo ver alguma coisa. Ficava por ali algum tempo, às vezes uma hora, depois pagava e ia embora. Nunca comia nem bebia nada, e não falava nada além de "me dá um suco de manga".
Sua presença já era tão comum que os funcionários da casa já falavam dele, aos cochichos. Alguns tinham a teoria de que esperava por uma noiva, mulher ou namorada (alguns achavam que era um namoradO), e quando a via sair, ia a seu encontro.
Alguns achavam que era um assaltante que pretendia roubar o prédio, e por isso ficava só observando. Outros ainda afirmavam que era muito longe para um ladrão observar um prédio, e o rapaz não usava nenhum binóculo.
Ao entregar o suco, o balconista perguntou:
- Mudou hoje?
- Pois é, não é...
- Mas porque a mudança?
- Achou estranho?
- É.
- Bem, não suportava mais beber suco de manga todo dia.
O balconista riu. Sem conseguir se conter - era a primeira vez que estabelecia um diálogo com "o jovem do suco de manga" - continuou puxando papo:
- Você...todo dia vem aqui, pede um suco e fica olhando para o prédio. Por quê?
- Bem, preferia não dizer.
- Claro...é que...bem...as pessoas falam muitas coisas, sabia? Muitas teorias a seu respeito...os funcionários, os freqüentadores...
O rapaz deu uma risada.
- É sério?
- Claro. Várias teorias, das mais absurdas, sobre porque você fica olhando esse prédio. Você riria se soubesse de algumas. E talvez ficasse chateado com outras.
- Que coisa engraçada...e bizarra, também.
- Pois é...e sabe, não nos aguentamos mais de curiosidade!
- A curiosidade matou o gato - disse o rapaz, sério, terminando o suco e pegando um maço de cigarros no bolso da calça. - Mas já que você insiste...bem, eu adoro aquele prédio.
- Como? Gosta do prédio?
- É, eu adoro. Gosto dele. Sei lá, tem algo que me fascina. Na verdade, todo esse ponto onde estamos. Não sei explicar, sabe? Aí recentemente perdi o emprego, não tinha o que fazer em casa...então venho passear às tardes, espairecer, tomar um suco e olhar o prédio. Acho legal. Acabou virando um hábito.
O balconista olhava o rapaz, perplexo. Então era isso. Bem, realmente uma coisa daquelas ninguém ia imaginar.
- Pois posso lhe ajudar.
- É sério?
- Claro. Eu conheço o porteiro daquele edifício. E ele poderia levar você para conhecê-lo.
- Puxa...que legal! E onde ele está?
O balconista sorriu e apontou para o homem que comia um sanduíche no balcão, e que também havia parado para ouvir a história.
- Deixe eu acabar de comer, que levo você lá - disse o porteiro.
Saíram os dois, atravessaram a rua e entraram no prédio. Conheceram tudo, todos os andares, locais, empresas que funcionavam ali, cada canto, cada curiosidade, a belíssima vista da Baía de Guanabara. Então desceram.
- E aí, o que achou? - perguntou o porteiro.
- É legal. Mas por dentro é como outro prédio qualquer. Por fora é bem mais bonito e interessante.
- Como assim?
- Vamos ali na lanchonete, que eu te mostro.
E os dois voltaram ao bar e ficaram ali, olhando...
- Sabe que você tem razão? - disse o porteiro, sorrindo. - Nunca tinha reparado como é bonito, esses vidros, esses mármores, nesse lugar, a Baía de Guanabara ao fundo, esse pedaço de céu que aparece, o encaixe perfeito com a saída do viaduto, o vento fresco batendo...sem todas aquelas pessoas, sem trabalho, nada, só o tempo passando. Lindo mesmo, cara.
E agora, todas as tardes, quem passa por aquela lanchonete percebe dois homens com um copo de suco na mão, olhando para um prédio...
Monday, October 13, 2008
Pitacos sobre as eleições no Rio
Para começar, uns pitacos sobre o segundo turno.
- Gabeira vacilou, e imagino que saiba disso. O adversário estava doido para dividir a cidade, e a frase sobre a vereadora Lucinha caiu como uma luva. Pronto, começou de novo aquela história Zona Sul x Subúrbio. Pode não fazer a diferença, mas, ao mesmo tempo, pode fazer MUITA diferença.
- Paes não tem moral nenhuma para falar de subúrbio, muito menos dizer que é suburbano, pois é filho de família rica da Zona Sul e nunca deve ter ido à Penha antes. Também não tem moral para pedir apoio a Lula, a quem chamou de "chefe de quadrilha" há dois anos atrás.
- Jandira Feghali, do PCdoB (!!!!!) também não tem moral nenhuma para pedir apoio a Paes. Há um mês atrás, ela o acusou de "trocar de partido como quem troca de roupa". Ela falava de quem, mesmo?
- Para mim, Paes saiu-se ligeiramente melhor no debate da TV Bandeirantes. Nem tanto durante as trocas de acusações, quando ambos duelaram por igual. Mas na hora de apresentar as propostas, me pareceu um pouco mais claro e objetivo do que Gabeira, que divagou um pouco em alguns pontos.
- Fica aqui um repúdio à campanha suja, baixa e sem escrúpulos que alguns candidatos vêm fazendo, não só no Rio mas também em outros estados. Panfletinhos com acusações imbecis, insinuações à homossexualidade do adversário, camisetas tentando dividir (ainda mais) a cidade. Esse comportamento não é nada condizente com quem se diz preparado para governar uma cidade.
Thursday, October 02, 2008
O concurso
- Bom-dia, chefe!
- O que é que você quer, Santiago? - perguntou o Fontoura, sem tirar os olhos da tela do computador.
- Puxa...nem pra me dar bom-dia!
- Você nunca me dá bom-dia, Santiago. É sempre um "oi" discreto. Quando cumprimenta assim, todo simpático, é porque quer alguma coisa.
- Quebra essa pra mim, chefe.
- De novo essa conversa, Santiago? Já falei que não!
- Por favor...
- Não, não e não. Agora anda, vai trabalhar e não me atrapalha.
- Mas chefinho...
- Chefinho é a tua mãe, Santiago. Olha aqui, hoje é sexta e você tem muito o que fazer. Então anda logo, vai pra tua mesa e começa a trabalhar, senão as coisas vão complicar. E nem ouse falar nada com a Roberta, hein?
O Santiago andava insuportável. Desde o início daquela semana, torrava a paciência de todos no escritório para não ter que trabalhar naquele fim-de-semana. Contava ele - nem todos acreditavam - que tinha que visitar o pai em Valença, porque o velho, de 80 anos, estava muito doente e ia morrer.
Para ir ver o "papai", ele fez de tudo: tentou trocar o fim-de-semana, fingiu que estava doente, pediu para não trabalhar, inventou que tinha quebrado a perna, depois o braço...
A Roberta, que trabalhava no fim-de-semana após o do Santiago, era a vítima preferida dele. Todos os dias ele encostava na mesa dela e começava a conversar. No início ela adorou, pois o achava bonito, mas quando percebeu que Santiago apenas queria trocar o fim-de-semana, passou a nem olhar na cara dele.
Depois de voltar da mesa do Fontoura, na sexta-feira, o Santiago chegou a dar uma meia-trava perto da mesa da Roberta...
- Nem vem.
- Por favor...
- Não quero saber.
- Mas...
- Não, não e não.
- Mas Rô...
- Não me chama de Rô, não me chama de Rô, você sabe que eu odeio!
- Mas Beta...
- Também não me chama de Beta, eu também odeio!
- Mas...
- Não me chama, não, tá, Santiago? Agora sai daqui antes que o chefe te esfole vivo.
Sem alternativa, ele voltou para a mesa. Seu tempo estava se acabando, tinha que pensar. Não podia trabalhar naquele fim-de-semana de jeito nenhum. Decidiu tentar o Fontoura de novo.
- Fontoura...
- De novo, Santiago? Olha aqui...preciso ter uma conversa séria com você.
- Diga.
- Não, não...venha comigo. Aqui não. Vamos fumar um cigarro.
O Fontoura saiu do escritório, com o Santiago atrás. Pegaram o elevador e desceram, o Santiago sem muita coragem de encarar o chefe. 'Vou ser demitido. Agora acabou-se tudo', disse para si mesmo.
Depois de sair do elevador, o Fontoura seguiu até a portaria do prédio, onde encostou do lado de fora e acendeu um cigarro. Deu uma baforada, e sem tirar os olhos do trânsito, disse...
- Santiago, me diz a verdade.
- Como?
- Se você me disser a verdade, ou seja, porque você não quer - ou não pode - trabalhar nesse fim-de-semana, dou um jeito no seu caso.
- Jeito como?
- Um jeito. Boto alguém de outro setor. Digo que você ficou realmente doente. Não interessa.
- Mas o meu pai...
- Não, Santiago, não. Essa desculpa não cola comigo. Você tem algum compromisso que considera inadiável. Ninguém força as coisas desse jeito exagerado como você está fazendo. Aliás, nunca faça isso. Soa ridículo.
- Sim, chefinho.
- E chefinho é a tua mãe - disse Fontoura, com ar irônico.
- Tá bom, eu falo. É...é...como dizer...
- Falando.
- Bem...eu...
- Você...
- É...um concurso público, é isso - disse Santiago, baixinho.
- Um concurso?
- Sim. Uma prova. A segunda etapa de um concurso público. A prova é domingo de manhã e por isso não terei como vir...e estar lá ao mesmo tempo.
- Um concurso, hã?
- Sim...para Furnas. Esse ano é em duas etapas.
O Fontoura ficou em silêncio por um instante, enquanto deu mais uma baforada no cigarro.
- Não precisava nada disso.
- Mas chefe...
- Você podia ter me dito em particular.
- Mas o senhor não ia me demitir?
- Demitir não...só não ia permitir que você fosse - e deu uma risadinha irônica.
- Então!
- Olha aqui, Santiago, era melhor você ter dito logo e pedido uma folga do que ficar inventando desculpas. Mesmo que eu não liberasse, não ia te demitir por querer fazer a prova. Todos tem direito de querer melhorar de vida.
- É...
- Então agora sossega e volta ao trabalho.
- Então posso folgar domingo, chefinho?
- Não - e deu uma risada. - Pode, sim, eu te prometi.
- Obrigado, chefe!
- De nada. E ah, mais uma coisa.
- Qual?
- Chefinho é a tua mãe.
***
No domingo, o Santiago chegou cedo ao local da prova, em uma faculdade particular na Praça XI. Cartão de confirmação e um estojo - com quinze canetas e doze lápis, para o caso de falhas - na mão, ele entrou na fila que levava ao prédio onde faria a prova.
Subiu de elevador, foi procurando até chegar à sala 706, e então entrou.
Depois de assinar a lista, começou a procurar um lugar. Estava cheio e só achou uma carteira livre, no fundo da sala. Ao lado estava um homem abaixado, amarrando o sapato.
- Ei, senhor - disse o Santiago, cutucando o homem - este lugar está livre?
- Está s...
- Não...não pode ser...FONTOURA?
- Santiago?!
Pedidos de silêncio vieram de todos os cantos da sala. Envergonhado, Santiago ficou ali, paralisado, sem saber o que fazer. O chefe o fez se sentar na cadeira vazia. Visivelmente constrangidos, os dois não disseram mais nada.
Terminaram a prova quase juntos. No corredor, Fontoura acelerou o passo e Santiago teve que correr para acompanhá-lo.
- Chefinho...
- Não diga nada, Santiago.
- Mas chefinho...
Irritado, Fontoura o segurou pelo braço e o encostou na parede.
- Olha aqui, chega, tá? Não precisa dizer mais nada. Nem aqui nem na empresa. Eu não falo nada sobre você e nem você sobre mim.
- Pensei que o senhor fosse guardar segredo mesmo...
- Era a idéia. Mas - abaixou ainda mais o tom de voz - não esperava que você fosse fazer a prova no mesmo lugar que eu, muito mais sentar do meu lado! Então se você falar sobre mim, não terei escolha!
- Eu...eu...
- Santiago, vamos ficar assim, tá? O assunto morre aqui.
- Tá.
Soltou o empregado e começou a andar. Dali a pouco parou e virou para trás.
- Mais uma coisa.
- O que?
- Chefinho é a tua mãe.
Tuesday, September 30, 2008
Ipanema Secreta
Deixei o escritório e fui em direção ao ponto do ônibus, no quarteirão seguinte. Quando estava quase chegando, o celular tocou. Surgiu um convite. Ipanema. Sim, porque não?
Enquanto falava ao telefone, o ônibus veio. Sensação estranha, essa, entrar no ônibus falando ao celular, ao mesmo tempo em que se dá boa-noite ao trocador, passa o vale-transporte no validador, passa pela roleta. E por fim, me sentei. "Já estou chegando aí", disse, antes de desligar.
Depois de uma viagem de quase quarenta minutos, desci na Lagoa. Agora são nove e pouco da noite de um sábado. Sábado - um dos dias eleitos pelos cariocas como "o dia de sair" (além de outras coisas, também). Mas a Lagoa está absolutamente deserta. Não há vivaalma, nada, ninguém. Apenas o barulho do vento batendo na água da lagoa, que reflete as luzes em volta naquele belíssimo espetáculo noturno, que mesmo passando todo dia por ali, não me canso nunca de apreciar. E claro, dos carros que passam voando pela rua.
Páro no sinal, esperando uma chance de atravessar, e depois de cruzar a via, entro na Rua Maria Quitéria, rumo a Ipanema. Mais uma vez, não há ninguém circulando, nem mesmo carros. Pelas ruas escuras e desertas, parece que nem mesmo o vento se atreve a passar. É impressão minha ou aqui está mais quente que na Lagoa? Ou seria...medo?
Ouço um barulho e olho para trás, o coração aos pulos - mas não, não é alguém me seguindo, foi apenas uma folha caindo no chão. O suor escorre do meu rosto em grossas gotas, à medida que acelero o passo.
Finalmente, depois de pouco andar, chego à Praça Nossa Senhora da Paz. Parece que enfim voltei à civilização: há luzes, barulho de carros, gente, movimento. É verdade que pouco, mas há. Melhor do que nada.
Ah, esse lugar me traz boas recordações. Costumava vir muito aqui há uns dois anos, ouvir rock grátis, beber no botequim, conversar com os amigos, pular, dançar, olhar as garotas, ficar de bobeira na rua ao lado de um pessoal bem alternativo. Era quase um "Baixo Ipanema". Hoje tudo mudou: o rock virou reggae, trocaram as garotas por turistas (e junto, vieram as prostitutas), e o pessoal alternativo por gente rica e tradicional. Perdeu a graça.
Passando pela praça, saio da Maria Quitéria e viro à esquerda na Visconde de Pirajá, principal rua de Ipanema, antepenúltimo trecho da viagem. À medida que caminho, a sensação de solidão e de aflição vai aumentando. Na calçada, não há nada. Ninguém, vazio total. Apenas o barulho do vento e o brilho de algumas luzes, lá longe. E umas três pessoas que surgem do nada, caminhando ali perto. Em plena nove e meia de um sábado à noite, no bairro boêmio de Ipanema, no Rio de Janeiro, a sensação de solidão é impressionante.
O único movimento é o de carros. É bem verdade que há gente em uma casa de suco, em uma padaria, em uma lanchonete. Mas o movimento é muito fraco e muito concentrado. Custo a acreditar. Ao passar por uma galeria, vejo uma placa que chama a atenção:
IPANEMA SECRETA
É isso. É essa Ipanema que eu procuro. A Ipanema da boemia, dos bares, das pessoas andando na rua, celebrando a vida, aquela coisa bem Zona Sul carioca. Dizem que sempre foi um bairro assim. Mas o que vejo é uma avenida-fantasma, onde até o vento às vezes parece ter medo de andar. Onde buscar essa Ipanema...Secreta?
Fico pensando...se está assim em um bairro chique da Zona Sul, imagine em outros onde as autoridades esquecem de olhar. Me pergunto as razões e não encontro. Porque é que no mesmo horário, num dia como esse, na Avenida Paulista, em São Paulo, há tanta gente andando na rua? Será que lá é menos violento? Será que é mais seguro?
A viagem a pé continua. Um mendigo me assusta ao pedir dinheiro, e não sou o único a desviar dele. É a sociedade tentando tornar invisível o que lhe incomoda. Decido entrar em uma loja de departamentos, dar um tempo. Meus pensamentos se distraem. Maldita música da Xuxa sobre escovar os dentes...não consigo me lembrar o que eu estava pensando antes.
O último trecho da viagem, enfim, até virar à direita na Rua Farme de Amoedo. Aqui sim, há movimento - senão nas ruas, ao menos nos bares, restaurantes e choperias, que estão apinhados de gente. A sensação de solidão quase que desaparece, até que viro à direita na Prudente de Morais, rua que leva "para fora" de Ipanema, e instantaneamente tudo volta. Por um momento, pois logo depois um ônibus passa fazendo barulho.
A viagem termina, as dúvidas permanecem.
Monday, August 11, 2008
Trocadilhos infames
O pai da Malu Mader é o Malu Fader.
Voce não tem, mas o Frankstein
Fulano afirma, mas o Arnold Schuaznega
Eu não vou furar, o Juca Kfouri.
Aquilo todo mundo viu, até o Clodovil.
Todo mundo só morre uma vez, mas a Alanis Morrissette.
Eu pulo do barranco, o Luciano do Valle.
Você já morou nos EUA? Não? A Marylin Monroe.
Ao ver uma modelo você fala que ela é bonita. O Miguel Falabella.
Meu pai gosta de fusca, a Rita Cadilac.
Eu gosto de sopa. O Carlos Massa.
A Maria é da cidade, o Martinho da Vila.
Você faria papel de trouxa? A Betty Faria.
Eu acordo mais tarde do que deveria e o Edir Macedo.
Ninguém queria pagar a conta mas a Cassia Kiss.
Eu pinto paredes, o Janio Quadros.
Eu estou perto de casa. O Silvester Stalonge.
O Pateta usa o teclado e o Mickey Mouse.
Eu moro em Copacabana. O Tony, Ramos
Eu escovo os dentes 3 vezes ao dia. O Joãozinho Trinta.
Você já esteve na Europa? A Adriana Esteves.
Eu fumo e o Celso Pitta.
Eu gosto de chá gelado. O Clark Kent.
Eu como pão Seven Boys. O Bill Pullman.
Eu uso telefone convencional. O Edson Cellulari.
Eu como um pouco, a Marisa Monte.
Ele cria galinha. O Paulo Coelho
Eu torço pro São Paulo. O Silvio Santos
Eu tentava pescar pirarucu. A Cláudia Raia
Eu não escapo dela. O Chiquinho Scarpa
Eu aposto na quina. O Airton Senna
A minha campainha faz bip. A do Bill, Clinton.
Eu uso jaqueta. O Al Capone.
Você planta, o Phill Collins.
Você riu desses trocadilhos? Não? O Damon Hill.
E esses aqui vão de bônus...
Eu viajo para a praia. E o José, Serra.
Eu cavo buracos. E o Mario, Covas.
Eu rezo na igreja, e o Evandro, Mesquita.
Eu como camarão, e o presidente, Lula.
Meu pai construía pontes, e a Fernanda, Torres.
Os pilotos cruzam o espaço aéreo, e o Wilson, Sideral.
Eu só como carne. E o Felipe, Massa.
O FHC era sério, e o Itamar, Franco.
Em breve mais. Ou não!!! =D
Monday, July 21, 2008
Até logo, amigo!
E na madrugada de ontem, um desses poucos se foi. Com 67 anos, José Monteiro (o Monteiro) era um cara mau-humorado, mas muito alegre. A contradição existe e é possível. Me lembro de tantas vezes que ri com seus palavrões, seu jeito estourado, suas manias engraçadas. Me lembro das longas conversas no fumódromo, ele falando de seus projetos para o jornal, de seus projetos fora do jornal, da vida que seguia, do site que atualizava, do trabalho que não acabava nunca, dos colunistas "safados e filhos da puta" (sic) que ele tinha que esperar mandarem suas respectivas colunas.
Me lembro de longas conversas no bar, esperando o momento em que ele iria embora e poderia me dar uma carona. A imagem que fica é ele debruçado sobre a janela do fumódromo, cigarro aceso, "vendo as modas lá fora". "Sou muito jovem, doutor", dizia ele (que chamava todo mundo de "doutor"). Mesmo depois de perder uma perna por trombose, não deixara de fumar. "Vou deixar de fumar é o caralho, doutor. Porra, tenho 67 anos, deixando de fumar vou viver até os 71, 72, então foda-se, fumo mesmo."
Um padrinho para mim nas horas mais difíceis dentro do jornal. "Quero ir para a rua, doutor", eu dizia, impaciente. "Calma, você vai." Tantas vezes ele disse isso que acabei largando a editoria dele pra ir pra rua, mesmo. Um dos homens que me fez ver que a vida de jornalista não era só rua. "Existe um outro caminho, doutor. Nunca fui para a rua.."
Sentirei sua falta, amigo. Você foi meu primeiro padrinho e meu primeiro professor na escola prática do jornalismo (a teórica é outra história). Aprendi muito trabalhando e convivendo com você, e não vou esquecê-lo.
Esteja onde estiver, fica o meu abraço. Vai com Deus, DOUTOR!!!!
Thursday, July 03, 2008
Tem capítulo inédito de Chapolin no SBT
Chaves/Chapolin estrearam no Brasil em 1984. Mas não vieram todos os episódios de uma vez - na verdade, foram quatro lotes. O primeiro em 1984 (duh!), o segundo em 1988, o terceiro em 1990, e...haveria um quarto e último, em 1992. Como eu sei disso? Bom, a série tem fãs desde que estreou, e há pessoas que assistiram tudo desde os primeiros capítulos, em 1984. Não só assistiram como gravaram!
E porque 4 lotes? Bem, o SBT encomendou alguns capítulos pra ver se a série era boa, rendia, dava audiência. Como a resposta foi positiva, foram ao México e compraram mais capítulos, ué.
E daí, você pergunta? Daí que essas pessoas que acompanham a série desde 1984 notaram que, ao longo dos anos, foram chegando episódios novos, enquanto outros sumiam, saiam do ar. Há provas disso? Sim, é mais do que memória pura - como acabei de dizer, há episódios GRAVADOS em fita e que nunca mais foram exibidos depois. Sou testemunha disso.
E esses 'sumiços' e 'estréias' de episódios se deram em 3 anos: 1988, 1990 e 1992. Além disso, houve mudanças na dublagem a partir de 1990, com risadas e músicas trocadas. E para completar, fãs babões (me incluo aí XD) notaram que tem capítulos com mais de uma dublagem, às vezes duas ou três. Isso é possível de se notar porque vemos os mesmos capítulos de Chaves 733 vezes, em média, então sabemos as falas de cor, e percebemos quando há mudanças. E algumas dessas dublagens têm características de 1988 e outras de 1990.
Enfim. Sabemos todos os capítulos de cor, conhecemos as falas, e percebemos quando alguns somem ou ficam um tempão sem passar. Como repete muito, não é difícil perceber isso.
Pois bem, alguns capítulos simplesmente sumiram ao longo dos anos. Pode ter sido censura, desorganização, enfim, o fato é que desapareceram. Na Internet havia listas deles, e para minha surpresa, pude ver alguns em 2003 - quando o SBT começou a remasterizar seu arquivo. Foi a comprovação definitiva que realmente tinha capítulo sumido. Para surpresa geral, em 2006 o SBT começou a exibir episódios INÉDITOS de Chapolin. Isso mesmo, inéditos.
Não que eles tenham sido gravados agora - só que vieram para o Brasil e ficaram guardadinhos no arquivo da emissora do Sílvio Santos, sabe-se lá porque. Então a palavra correta não seria nem inédito, seria "nunca exibido". E o mais surpreendente é que em 2006 foram exibidos dezenas de capítulos INÉDITOS do Chapolin, sem qualquer divulgação. Fazendo as contas, tinha quase um lote inteiro nunca exibido.
Para surpresa geral, tá acontecendo de novo agora. Vi Chapolin anos a fio, todos os dias, e nunca vi os episódios exibidos anteontem (A história de Cyrano de Begerac) e hoje (O marciano). Outros fãs confirmam: é material inédito.
Não sei se tem alguém lendo isso, mas se estiver e gostar da série, fique ligado no SBT, 13h15. Pode pintar um capítulo que você nunca viu...
Thursday, June 12, 2008
Freedom, internet´s essence
On university, people have discussions about many things and themes. One of them is about internet and how it changed the world. And one of the main ideas is "before Internet, just a little families were controlling media. It was media from some people to many people. Now, with Internet, it´s from many people to many people". But some companies are trying to change this. They want people to pay to create their sites and blogs, to access sites. They are trying to change the most marvelous thing in Internet - its freedom, that no other media have. The way people have to express themselves in blogs, microblogs, sites, Youtube, and others.Well, Internet used to be even more free. When I started using it, in 1996, just a few sites asked to pay for access, or for a membership. One year later, this number has increased a lot. Why? Money. Companies discovered that they could use internet to earn money and tryed to change it.Did it work? No. Users found a way to enter in this 'pay' sites, asking for passwords with hackers or visiting similar sites that had the same material, but for free. It was like internet freedom itself was fighting against the ones that wanted it to disappear.But it didn´t disappeared. It was the same with Napster, mp3 and similar programs. Internet freedom is so marvelous and has so many possibilities that users always find a way to keep it alive. It´s the best thing on this media: the possibility that you can express yourself, for free and for many, without anyone telling you if you can or cannot do it, when, on which time, and in which ways.It´s marvelous, and until now, companies have lost the battle against it. Musical industry have changed a lot, trying to incorporate themselves on this. Copyright companies have tryed to remove youtube videos, and other video sites, but users have reacted, and internet freedom won. They put so many copies and it was impossible to remove all of them.It´s marvelous, it´s wonderful, and it´s the best thing on this media. I understand companies need to earn money to survive, but there are another ways. They can use online marketing, for example. If they try to stop the freedom itself, they´re just going to lose more and more money, and have fewer site clickings than other free sites.Internet freedom is like the essence of the internet, the way it maintain itself, and it shouldn´t and won´t disappear. For the future of this new and fantastic media.
Thursday, June 05, 2008
Cai a noite
De pé em frente à janela, os olhos no infinito lá embaixo, uma garafa d´água na mão. São mais ou menos seis horas. À minha esquerda, há apenas o som distante de gente trabalhando. A luz do sol começa a desaparecer devagar, aos poucos, dando lugar ao brilho das luzes da cidade. A noite. Como gosto da noite. Mas como me soa triste agora.
Bebo um gole. A rua parece cheia, lotada, com gente apressada, bem e mal vestida, indo para um lado e para o outro. Carros passam em alta velocidade. Bares começam a acender as primeiras luzes. Um homem vem caminhando com um jornal embaixo do braço, encontra outro em uma porta de garagem. Se cumprimentam, começam a conversar. Mas nada chama mais a atenção do que o vasto infinito, onde o céu parece terminar lá longe, e de verdade, só vejo isso: além.
O agora parece a mesma rua lá embaixo, só que vazia, sem gente, sem carros, sem os dois homens se cumprimentando, com os bares todos fechados. Como se a noite já fosse a mais alta madrugada. Como se a noite já tivesse ido...além.
Há muita coisa em volta, e mesmo que perceba tudo, não vejo. O olhar é sempre para o infinito...mas não deveria ser...o olhar é sempre infinito? Escrevi errado, de propósito ou errado de propósito? O que erra? É meu olhar, minha sensação ou o texto?
Enquanto penso, a vida lá fora continua correndo correndo correndo. E meu chefe acabou de passar e perceber essas maquinações. E meu olhar parece continuar fixo no mesmo ponto: ali, logo ali, onde o céu parece terminar.
A noite caiu de vez, e agora já vejo umas poucas estrelas brilhando no céu. No além...no infinito.
Monday, May 05, 2008
Referência
Mudei eu? Ou mudou a mesa?
E essas cortinas? Se me lembro bem, pareciam quase brancas quando não estavam na janela. Agora ganharam um tom bege, uma coisa entre o branco e o cinza, e estão cada vez mais amareladas. Sujeira? Tempo? Ou meus olhos?
Mudei eu? Ou mudaram as cortinas?
O pórtico da cozinha costumava ser enorme, gigantesco. Passar por ele era quase como atravessar um portal, de tão grande. E eu nunca tinha reparado bem nessa armação de metal na parte de cima. Agora parece tão...simples. Tão normal, comum.
Mudei eu? Ou mudou o pórtico da cozinha?
E essa manhã? Me lembra colégio, faculdade, aula, ter que acordar cedo, interromper o sono. Essa manhã costumava ser muito chata. Mas...ah, essa manhã enevoada, plúmbea e pardacenta...de quando o sol não nasceu. Nunca tinha reparado como é bonito esse momento, simples, esse silêncio, quebrado apenas por um leve carro passando. Como a luz amarelada acesa sobre essa manhã dá um ar bonito à rua, uma coisa quase que poética.
Mudei eu? Ou mudou a manhã?
E o sono? Ah, ele costumava ser mais profundo, mais bonito, mais descansado. Mas...o sono continua sendo um dos raros momentos de...descanso...em meio à vida agitada e corrida, um dos raros momentos em que é possível relaxar quase que inteiramente. Bem...às vezes há um despertador para atrapalhar...mas há sempre um sono sem despertador. Que bonito esse silêncio do sono, essa paz que ele costuma transmitir.
Mudei eu? Ou mudou o sono?
Sono. O sono costumava ser uma coisa chata, irritante, e de vez em quando ainda é. Dormir. Tanto tempo perdido, oito horas, dormindo. Mas que palavra legal essa, "sono". Legal mesmo, nesse termo. Porque "sono" lembra "som", mas é justamente o oposto. É justamente ver o rosto do outro em paz, tranqüilo. Há sonos agitados, há pesadelos, há sonhos ruins - mas descanso é sempre bom.
Mudei eu? Ou mudou o sono?
Esse travesseiro costumava ser mais confortável, mais macio, mais fofo, digamos assim. Costumava ser mais agradável. E costumava ser mais limpo, ter cheiro melhor. Mas como é bom poder deitar e recostar a cabeça em algum lugar macio!
Mudei eu? Ou mudou o travesseiro?
Tudo começou como uma grande referência das coisas, um olhar...e virou um grande espanto de coisas que parecem tão óbvias que nem se pára para pensar nelas. O que parecia ruim parece se tornar melhor, se olhado de outro jeito, outra forma, outro espanto.
Mudei eu? Ou mudou o texto?
Tuesday, April 29, 2008
O sonhador, a chuva e o banco do parque
No céu, apenas a lua e as estrelas. No interior do parque, seguiu o caminho de pedra por entre as velhas lamparinas, até achar seu banco preferido, encostado a um poste meio torto, a lâmpada já parecendo que ia cair a qualquer momento.
Olhando para os lados mais uma vez, viu que não havia ninguém. Respirando fundo, tirou um lenço do bolso da calça, passou na testa, guardou o lenço de novo e se sentou no banco.
Ficou ali, olhando para o horizonte, para o ponto onde a montanha parecia se encontrar com o céu estrelado, sentindo a brisa leve bater em seu rosto. Ouvindo o silêncio calmo da madrugada, quebrado talvez por um ruído de algum animal próximo, um grilo quem sabe. Nada mais. Apenas o silêncio. Apenas o barulho de seus pés batendo um contra o outro. E ficou pensando...
Não aceitava. Não queria aceitar aquilo, de jeito nenhum. Doía. Machucava. Incomodava. Sentia falta. Precisava. Mais do que uma necessidade, era quase uma obsessão. E agora...estava acabado. Tudo acabado.
Por mais que tivesse feito, não havia jeito de mudar, reverter ou trocar, não havia como substituir. As coisas chegaram a tal ponto que tinham se tornado rígidas. Não havia meio de voltar ao que eram, simplesmente porque haviam deixado de ser.
O vento soprou, levantando folhas, poeira do chão. Alguma coisa bateu em uma pedra, ali perto. O silêncio, só o mais profundo silêncio.
E agora? Sabia que as coisas estavam assim, estáticas, fixas, rígidas, e fim. Mas estava triste com isso. Porque, porque tinha que ser assim, desse jeito? Não podia ser de outro? Não queria mais que fosse assim. Queria que fosse do outro jeito.
Mas como faria para mudar? Não havia mais meio de mudar, as coisas simplesmente já não eram mais...não existia meio.
Uma lágrima escorreu por seu rosto, e a ela se juntou mais uma, e mais uma, e mais outra, até formar um choro quase convulsivo, entremeado por soluções e aparado apenas pelo lenço. Era pouco: as lágrimas escorriam por suas mãos, por seus dedos.
Levantando apenas os olhos, ficou olhando o horizonte lá longe. E, não sabia se era efeito do sono ou do choro, tudo começou a girar...as pedras, as árvores, o chão, o céu, o horizonte...tudo começou a se desfazer...
Agora não estava mais no parque à noite. E não era mais adulto. Epa. Estava se vendo. Sim, lá estava ele, com seus cinco anos. Onde foi que já vira algo parecido?
Lá estava: ele, pequenino, de mão dada à mãe. O dia, porém, não era nada bonito: nuvens negras de chuva se avolumavam no céu do parque e grossos pingos de chuva começavam a cair.
- Mamãe, mamãe...tá chovendo...não gosto de chuva...não posso brincar...
As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto do pequeno, enquanto a mãe o agarrou pela cintura, o ergueu e tentou tirá-lo dali, enquanto enxugava suas lágrimas.
Foi atrás: não estava entendendo nada e queria acompanhar a cena. A mãe seguiu até uma árvore, onde botou o pequeno, ainda chorando, no chão.
- Mamãe, mamãe, tá chovendo...não gosto de chuva...eu quero sol...eu quero sol!
- Mas meu filho, tá chovendo...não dá pra fazer sol agora!
- Mas eu quero sol...eu quero brincar...e com chuva não dá...eu quero que faça sol!
- Mas meu filho, não dá...
- Eu quero, eu quero...
Quase perdendo a paciência - visível por seu rosto irritado - a mãe tirou alguma coisa plástica da bolsa e desembrulhou. Uma capa. Enfiou no filho pela cabeça, cobrindo o pequeno quase todo.
- Pronto.
- Hã?
- Você quer brincar?
- Quero, mas eu quero que faça sol, com chuva não dá!
- Quem disse que não?
- Não dá, a gente se molha todo...
- E isso por acaso é ruim?
- Eu quero sol...
- Você tá de capa. Agora pode ir brincar.
- Eu...
- Anda, vai brincar. Você tá de capa, molhar um pouquinho não vai ter problema.
Deu um passinho na direção da chuva. Voltou. Olhou para a mãe, que o encorajou. Ameaçou fazer cara de choro...
- Anda logo!
Deu dois passinhos...mais dois...mais três...cinco...vinte...e dali a pouco estava brincando entre as poças, pulando, aproveitando ao máximo a chuva.
Tudo girou, foi se desfazendo...e estava de volta à noite, ao banco, ao horizonte.
Olhando uma última vez para o céu estrelado, já sem choro, sem lágrimas, mais calmo, foi caminhando lentamente em direção à saída.
Vou sair pra ver o céu
Vou me perder entre as estrelas
Ver da onde nasce o sol
Como se guiam os cometas pelo espaço
E os meus passos...
Nunca mais serão iguais...