Sunday, December 13, 2009

Crônica de um dia qualquer

Hoje é domingo.

Mas podia ser sábado. Ou quarta-feira. Ou...

O dia está cinza, chuvoso, mas no meu quarto está batendo uma brisa fresca, gostosa, que vem com aquele cheiro de dia frio. Cheiro de dia frio...devo ser o único que parou para pensar nisso.

E nada do telefone tocar.

Falei com ela ontem. Ela me jurou que ia ligar hoje e me fez jurar que não ia ser eu a ligar. Seria melhor assim. Eu quis insistir, saber o porque, mas ela não me disse. Teimou, bateu o pé e prometeu que ela ia me telefonar. Me fez jurar que não ligaria.

Tudo bem. Pedido esquisito...estranho...mas nada que não possa ser feito. Aliás, por que é mesmo que é um pedido estranho?

Não sei, e nem faz diferença. O que importa é que ficou combinado assim: ela me ligaria assim que pudesse. Queria combinar tudo o quanto antes. Tudo bem, fiquei de esperar.

Se hoje fizesse sol em vez de chuva, eu poderia dizer que o sol já vai alto no céu. Mas hoje nem essa figura poética posso usar, porque não tem sol. Por acaso será que "a chuva vai alto no céu" ficaria bem nessa parte?

Não, não mesmo.

E nada do telefone tocar.

Melhor tentar ler alguma coisa. Pego um livro, folheio. É inútil, os pensamentos viajam, divagam. Se de repente a cabeça imagina um cavaleiro medieval de espada em punho e elmo na cabeça, montado imponente em seu cavalo, de repente ele vira fumaça e vejo aquele rosto, ali, flutuando, a cabeça vai longe. Tento ler, mas as palavras começam a perder o sentido, e de repente, percebo que li três páginas e não estou entendendo mais nada.

Volta e meia a cabeça se vira para o celular, ali, em pé no suporte, em cima da escrivaninha.

E nada dele tocar.

Desisto de ler, é inútil. Boto o livro de lado, vou procurar o que fazer. Quem sabe ir até a cozinha, beber alguma coisa.

Pego um copo e uma jarra de água, e estou prestes a servir, quando escuto um bip.

Largo tudo, saio correndo, vou ver o que é. Agora é!

Agora é, realmente...o computador. Foi um apito, indicando o fim de mais um download.

E nada do telefone tocar.

À medida que o tempo passa, pensamentos e palavras parecem se perder. A televisão parece sempre a mesma, nenhuma notícia chama atenção no jornal, e na internet o muito que há para fazer se revela chato, inútil. Textos e informações se repetem, e parece que tenho lido os mesmos sites há mais de uma semana.

Agora as horas já vão longe, muito longe, a chuva continua caindo, o frio continua inundando o quarto, e parece que simplesmente não há mais o que fazer para passar o tempo.

Bem, eu poderia adiantar o relógio, quem sabe...

Não, deixa pra lá. Podia talvez assistir um DVD. Ou sair para dar uma volta, esfriar a cabeça. E levaria o celular. E não haveria mal algum...se ela

ligasse, eu atenderia do mesmo jeito, e estaria tudo resolvido.

Bah, mas tá chovendo. Andar na chuva é ruim demais. Melhor ficar aqui, mesmo.

E nada do telefone tocar.

O tempo passou, a chuva se foi e o dia também. Mas o frio continua inundando o quarto, disputando espaço com a minha própria ansiedade. Páreo duro...

A noite caiu, as horas avançaram, e nada. Eu deveria ter ligado. Deveria ter dito tudo o que ainda não disse...ou não quis dizer...ou deveria ter dito que queria dizer...

Seja como for, agora é tarde demais. Melhor desligar o celular e ir dormir.

Pego o telefone, abro o flip...

E dou uma gargalhada.

Daquelas de fazer os vidros estremecerem, e a poeira levantar do chão limpo.

Olho de novo o telefone e continuo rindo.

Só rindo, mesmo.

Como ela poderia ter ligado se esqueci de ligar o telefone?

Aliás, ela ligou. Um monte de vezes.

Mas talvez agora seja tarde demais...

Saturday, December 05, 2009

Perfeito

Enquanto a inspiração não vem, fiquem com a poesia incrível de Louis Armstrong em What a Wonderful World.

Eu vejo as árvores verdes, rosas vermelhas também
Eu as vejo florescer para nós dois
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso

Eu vejo os céus azuis e as nuvens tão brancas
O brilho abençoado do dia, e a escuridão sagrada da noite
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso

As cores do arco-íris, tão bonitas nos céus
Estão também nos rostos das pessoas que se vão
Vejo amigos apertando as mãos, dizendo: "como você vai?"
Eles realmente estão dizendo: "eu te amo!"

Eu ouço bebês chorando, eu os vejo crescer
Eles aprenderão muito mais que eu jamais saberei
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso

Sim, eu penso comigo... que mundo maravilhoso!